The Lodger: A Story of the London Fog

2017/01/11

O primeiro filme sobre crime de Hitchcock já contém vários elementos que indicam a que veio esse diretor, que já demonstrava inventividade em seus trabalhos anteriores. Aqui ele mantém algumas boas ideias (como a câmera subjetiva, girando no meio de um quarto, olhando o reflexo do rosto no vidro, e até caminhando furioso em direção a uma pessoa amedrontada) e cria tantas outras novas. Porém, mais que isso, constrói um belo filme através de um roteiro até que mediano.

A história gira em torno de um serial killer que se auto-intitula O Vingador (The Avenger, em um pedaço de papel no bolso da vítima), e mata garotas loiras às terças-feiras. Toda a construção do matador lunático é feita com elementos que lembram um psicopata e através da fantasia do grande público, que consome avidamente o jornal com as últimas notícias sobre os assassinatos. Um dos policiais responsáveis pelas investigações namora uma garota loira, e esta garota vive com os pais em uma casa grande que está com um quarto a alugar. A descrição do assassino é tão bem martelada em nossas cabeças que quando chega um rapaz para alugar o quarto, o imaginário hitchcockiano já foi implantado em nosso cérebro.

Os atores dessa época do cinema mudo eram bem caricatos, pois não havia à disposição os diálogos, apenas os intertítulos, usados apenas para informação que não conseguisse ser mimetizada pelos atores. Isso dava margem à interpretações exageradas, mas marcantes, como Nosferatu, e aqui o inquilino do filme, vivido por Ivor Novello de maneira icônica, com um tom perturbador cujo temperamento sugere fortemente que este é de fato o assassino que todos estão à procura. Ele cria essa persona com extrema propriedade. Novello é um artista multifacetado, e depois de seu último filme em 34 resolveu se dedicar inteiramente a seu outro talento: a música. Sua pele pálida, seus lábios finos e seu jeito afeminado constituíram talvez o primeiro personagem marcante dirigido por Hitchcock.

Curiosamente, este é um filme com dois plot twists, um deles impressionante para a época de hoje: uma mulher que beija dois homens, e se apaixona pela “pessoa errada”. E o outro twist marca o primeiro da carreira do diretor, que quer mostrar os perigos de um julgamento apressado. Hitchcock nos dá as pistas e as retira depois. É um ato barato. Mas é tão bem articulado neste filme, quando percebemos realmente qual a moral da história, que acaba soando como um artíficio legítimo e poderoso.

A inventividade de um diretor que filma embaixo de uma placa de vidro onde o ator anda de um lado a outro, e usa uma transição com o teto da sala da residência, onde podemos ver o lustre se mexendo, é a marca de alguém preocupado com todas as formas possíveis de contar sua história. Em uma época onde ainda a linguagem estava se desenvolvendo, ele vira um participante ativo na construção da própria arte cinematográfica. E começa a sessão de crimes que tanto marcaram o cineasta.

★★★★☆ Título original: The Lodger: A Story of the London Fog. País de origem: UK. Ano 1927. Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Marie Belloc Lowndes. Eliot Stannard. Alfred Hitchcock. Elenco: Marie Ault (The landlady). Arthur Chesney (Her husband). June Tripp (a mannequin Daisy). Malcolm Keen (a police detective Joe). Ivor Novello (The Lodger). Reginald Gardiner (Dancer at Ball). Eve Gray (Showgirl Victim). Alfred Hitchcock (Extra in Newspaper Office). Alma Reville (Woman Listening to Wireless). Edição: Ivor Montagu. Fotografia: Gaetano di Ventimiglia. Hal Young. Trilha Sonora: Ashley Irwin. Duração: 74::(National Film Archive print). Razão de aspecto: 1.33 : 1. Gênero: Crime. Tags: torrent

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