The Lodger: A Story of the London Fog

O primeiro filme sobre crime de Hitchcock já contém vários elementos que indicam a que veio esse diretor, que já demonstrava inventividade em seus trabalhos anteriores. Aqui ele mantém algumas boas ideias (como a câmera subjetiva, girando no meio de um quarto, olhando o reflexo do rosto no vidro, e até caminhando furioso em direção a uma pessoa amedrontada) e cria tantas outras novas. Porém, mais que isso, constrói um belo filme através de um roteiro até que mediano.

A história gira em torno de um serial killer que se auto-intitula O Vingador (The Avenger, em um pedaço de papel no bolso da vítima), e mata garotas loiras às terças-feiras. Toda a construção do matador lunático é feita com elementos que lembram um psicopata e através da fantasia do grande público, que consome avidamente o jornal com as últimas notícias sobre os assassinatos. Um dos policiais responsáveis pelas investigações namora uma garota loira, e esta garota vive com os pais em uma casa grande que está com um quarto a alugar. A descrição do assassino é tão bem martelada em nossas cabeças que quando chega um rapaz para alugar o quarto, o imaginário hitchcockiano já foi implantado em nosso cérebro.

Os atores dessa época do cinema mudo eram bem caricatos, pois não havia à disposição os diálogos, apenas os intertítulos, usados apenas para informação que não conseguisse ser mimetizada pelos atores. Isso dava margem à interpretações exageradas, mas marcantes, como Nosferatu, e aqui o inquilino do filme, vivido por Ivor Novello de maneira icônica, com um tom perturbador cujo temperamento sugere fortemente que este é de fato o assassino que todos estão à procura. Ele cria essa persona com extrema propriedade. Novello é um artista multifacetado, e depois de seu último filme em 34 resolveu se dedicar inteiramente a seu outro talento: a música. Sua pele pálida, seus lábios finos e seu jeito afeminado constituíram talvez o primeiro personagem marcante dirigido por Hitchcock.

Curiosamente, este é um filme com dois plot twists, um deles impressionante para a época de hoje: uma mulher que beija dois homens, e se apaixona pela “pessoa errada”. E o outro twist marca o primeiro da carreira do diretor, que quer mostrar os perigos de um julgamento apressado. Hitchcock nos dá as pistas e as retira depois. É um ato barato. Mas é tão bem articulado neste filme, quando percebemos realmente qual a moral da história, que acaba soando como um artíficio legítimo e poderoso.

A inventividade de um diretor que filma embaixo de uma placa de vidro onde o ator anda de um lado a outro, e usa uma transição com o teto da sala da residência, onde podemos ver o lustre se mexendo, é a marca de alguém preocupado com todas as formas possíveis de contar sua história. Em uma época onde ainda a linguagem estava se desenvolvendo, ele vira um participante ativo na construção da própria arte cinematográfica. E começa a sessão de crimes que tanto marcaram o cineasta.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-01-11 imdb