The Room

May 24, 2018

Imagens

Este é um review encomendado pelos meus amigos, que insistiram que eu deveria ver e revisar este surpreendente jovem clássico. Sim, é claro que eu já sabia se tratar de um daqueles filmes famosos por estar em muitas listas de piores filmes já feitos, mas apesar de eu já ser um pouco fã do gênero trash acredito que eles conseguiriam muito mais a minha atenção se dizessem que você nunca viu nada igual. E é a mais pura verdade. E digo mais: talvez eu nunca tenha visto nada igual dentro do próprio filme, onde os personagens mudam de ideia e de humor a toda hora.

Por exemplo, temos uma personagem que revela ter câncer de mama, mas essa revelação bombástica é descartada pela sua própria filha como algo corriqueiro. Ou quando vemos um caso sério de dívida de drogas em uma única cena para ser esquecido para sempre. Além do mais, neste filme pessoas vão e vem à casa do protagonista, abrindo a porta principal casualmente, como se ali fosse algum tipo de passagem obrigatória de transeuntes, e alguém bate na porta uma única vez no filme inteiro porque tem alguém sem camisa do lado de dentro. Vemos algumas tomadas da cidade de São Francisco como se isso tivesse alguma relação sobre o principal cenário onde as coisas acontecem, deixam de acontecer e acontecem de novo: o loft-título onde Johnny vive com sua futura esposa Lisa.

Lisa e Johnny fazem sexo duas vezes neste filme, e nas duas vezes temos que ver o nu de costas de Johny. Entre esses dois momentos Lisa também faz sexo com Mark, o melhor amigo de Johnny. Mark questiona constantemente o que Lisa está fazendo, querendo que ele faça sexo com a mulher do seu melhor amigo (aprendemos que Mark é seu melhor amigo umas quinze vezes), mas o próprio Mark não se priva de ir até a cama com ela e ficar gemendo por detrás de cortinas em momentos que lembra, ou copiam descaradamente, soft porns como a série Emmanuelle (que por contrastre vira um dos filmes mais eróticos que o Cinema já produziu). “Eu te amo”, diz Lisa para Mark. “Eu não amo Johnny”, diz Lisa para todos menos Johnny. Ela fala sobre amor umas trinta vezes. Um verdadeiro desafio para o espectador é saber qual fala é dita mais, mas independente de qual é, a minha favorita de Lisa é “eu não quero falar sobre isso”. Essa fala também revela nosso próprio inconsciente, falando para nós mesmos sobre a experiência de ter assistido esse filme.

Mas Johnny é o personagem principal. E ele, vamos aprendendo aos poucos, é uma boa pessoa. Ele paga o colégio de um menino de 18 anos com cara de 30 (e que quer comer sua futura esposa, e que confessa isso para Johnny, que nem liga; mas que mártir esse Johnny!). Quando vai à floricultura, a dona diz que ele é seu cliente favorito. Todos amam Johnny (menos Lisa). Muito educado, Johnny sempre diz oi e tchau para todos em volta, muito embora ele encontre todos eles sempre em sua sala de estar. Basicamente é isso que ele sempre diz, além de perguntar como as coisas estão (e elas nunca mudam). Acho que a maior parte de sua fala no roteiro é “oi, fulano”, “tchau, fulano”, “como você está?” e, a minha favorita, “ha ha ha”. Essa risada característica de Johnny criada pelo ator é usada nas cenas casuais, nas cenas de sexo. Até nas cenas dramáticas. Em um momento, quando ele ouve que um dos amigos de Mark apanhou violentamente, adivinhe o que Johnny responde? Acertou: “ha ha ha”. Começo a gostar desse cara.

Isso me lembra que a maior injustiça com este filme que se tornou um cult é que seu gênero está marcado no IMDB como drama, mas dificilmente um drama me faz rir tanto nos momentos mais aleatórios. Não é tanto o roteiro que é ridículo, mas comecei a imaginar os atores se sujeitando a trabalhar neste projeto e sendo obrigados a fazer alguma coisa com suas falas. O verdadeiro drama está nos trabalhos de Greg Sestero (que faz Mark) e Juliette Danielle (que faz Lisa), que precisam dizer suas falas como se tudo aquilo fosse possível de acontecer. Eu realmente espero que durante as filmagens os atores não tivessem a mínima ideia de como o filme seria montado, pois se tornaria menos doloroso ver a ordem completamente caótica que seus personagens reagem a cada novo acontecimento. E por falar em montagem, bem, eu conheço pelo menos alguém que não tem a mínima ideia de como o filme ficaria no final. Essa pessoa se chama Eric Chase. Procure nos créditos finais; está marcado como editor. Pobre Eric.

Mas por falar em créditos, seria injusto não reconhecer que a verdadeira “virtude” deste projeto reside nos gigantes ombros deste baixinho simpático. Olá, Johnny, tudo bem? Ele é Tommy Wiseau, e gastou seis milhões de dólares empregando temporariamente uma pequena equipe e alugando um “kit completo de diretor” (seja lá o que isso for), incluindo duas câmeras e dois operadores de câmera: ele queria ser conhecido por filmar o mesmo filme usando dois formatos distintos (e conseguiu, apesar do resultado final ter sido usado apenas a de 35mm). Ele também realizou locações erradas e filmou enquanto a câmera… ops, as câmeras, não estavam enquadradas, o que custou a ele mais tempo extra de filmagens, além de refilmagens porque vários atores desistiam do projeto antes de terminá-lo. Não fico surpreso pelos erros técnicos de produção de Tommy Wiseau, porque este gênio já nos mostrou que não conhece nada de tecnologia (ou sobre seres humanos). Em seu roteiro, Johnny deixa uma fita gravando ligações telefônicas por dias, e próximo do final do filme a fita ainda está gravando. Esse tipo de detalhe deixa qualquer um sem palavras. Talvez eu tenha uma: autismo.

Não há dúvidas que Tommy Wiseau – produtor, diretor, roteirista e ator – é o verdadeiro herói deste filme, no sentido Ed Wood de herói. Ele conseguiu ainda através dos investimentos com marketing fazer este filme passar em várias salas de Los Angeles, e se tornar, pelo menos nas palavras de um professor de estudos cinematográficos, “o Cidadão Kane dos filmes ruins”. Meu amigo concorda com essa afirmação, desbancando outro clássico, este de Ed Wood, Plan 9 From Outer Space. Eu não tenho acredito muito em listas, muito menos o-top-alguma-coisa, mas uma coisa eu acredito: talvez este seja o pior filme que eu já assisti e que ao mesmo tempo me gerou uma vontade inexplicável de continuar o vendo até seu final, e mesmo que ele tivesse ainda mais duas horas de duração continuaria vendo. Há algo inexplicável na obsessão que ele gera. Assim como Alice no País das Maravilhas caindo na toca do coelho, uma vez que você cai neste antro do inexplicável é difícil se desvencilhar do fato que nossa natureza humana é atraída por desastres. Quando há um acidente de carro na rua logo nos aproximamos para ver melhor. Este filme tem o mesmo efeito viciante. Quando pior ele vai ficando, mais difícil é deixar de vê-lo. E ainda acho que um dia terei que vê-lo de novo. O que me faz repensar: seria terror um gênero mais apropriado para The Room? Até isto é uma incógnita!

Wanderley Caloni, 2018-05-24. The Room. EUA, 2003. Escrito, produzido, dirigido e estrelado por Tommy Wiseau. Também com Greg Sestero e Juliette Danielle. IMDB.