The Walking Dead - Terceira Temporada

Apr 3, 2013

Imagens

Se a segunda temporada de The Walking Dead é um banho de água fria que vira um melodrama quase celebrando a mediocridade de algumas novelas globais, a primeira metade da terceira temporada e alguns belos momentos da segunda metade quase que compensam a tortura de acompanhar os velhos e conhecidos episódios arrastados na mesmice.

O começo da nova trama aproveita um gancho do último episódio da trama anterior e mostra como Rick e seus seguidores evoluíram como um grupo, tomando uma prisão infestada de zumbis em questão de minutos. Ou deveria dizer andarilhos, como a imprecisa e canastrona legenda nacional dessa vez chama os morto-vivos comedores de gente. Curiosamente agora eles não são uma democracia, mas surge uma nova forma de organização dirigida por uma pessoa que é chamada de Governador. Eles possuem armas, moradia e suprimentos e a mente de um psicopata (David Morrissey, mal escolhido) que manipula a mente e os corações de seu “povo” para atingir seus próprios objetivos. Qualquer relação com 100% das democracias populistas do nosso século será mera coincidência.

Aliás, os comentários políticos são uma boa novidade em TWD, que demorou para mostrar mais pessoas sobrevivendo ao holocausto zumbi, mas infelizmente as trata em sua maioria como os coadjuvantes sem graça do grupo principal. E apesar de dessa vez fazer as mortes valerem a pena e se tornarem mais realistas, a seleção dos que vão morrer beira o ridículo e dá razão a South Park: O Filme, colocando membros negros no grupo por três episódios apenas para matá-los sem maiores delongas. O curioso não é isso, mas um deles é alto e forte e resistiria bem mais que o atormentado líder da equipe fracote do presídio. Enquanto isso, na cidade improvisada pelo tal Governador, a fachada das casas é colorida e bonita, mas alguns quartos são escuros e feios, como o laboratório e o “aquário de zumbis”. O pátio onde as lutas em torno de zumbis e as declarações hostis do Governador também segue a mesma lógica de que o feio é escondido da aparência perfeita e inofensiva da comunidade.

Aliás, a luta fingida com zumbis sem dentes, ensinando erroneamente que são inofensivos, é mais um comentário político interessante que diz muito sobre a decisão de alguns governantes de lutar pelo desarmamento de sua população. Da mesma forma quando o primeiro zumbi adentra a cidade e as pessoas ficam atônitas e nem sabe o que fazer com uma vítima. No entanto, os inúmeros roteiristas e diretores não parecem muito entusiasmados em criar algum tipo de coesão nesses discursos. Ou eles são abafados por tantas delongas que fica difícil acompanhar uma história de tantas sutilezas. Diferente, por exemplo, da ótima sequência de Daryl falando sobre a morte de sua mãe seguido pela fala final de outro personagem que praticamente vale o episódio inteiro. São momentos como esses que fazem quase valer passar horas assitindo aos mesmos dramas.

E por falar em dramas repetidos ou personagens sem carisma, o mistério que cerca Andrea e Michonne soa batido antes mesmo de começar, pois a garota é praticamente muda. Se tentaram fazer uma relação lésbica ou foram covardes demais ou sutis demais. Eu aposto em uma amizade, daquelas que todo mundo no seriado fala: “ela salvou minha vida”. No entanto, a questão nessa série é: será que irá sobrar alguém que não salvou a vida de ninguém?

Outro clichê que começa a perder sua eficácia, mesmo que usado em diversos filmes, é quando alguém desaparecido irá voltar. Sim, porque se alguém sumiu, não se sabe se morreu, então é “óbvio” que a pessoa ainda está viva. A não ser que seja uma criança (praticamente o tema do episódio anterior).

Já nos aspectos técnicos é preciso dar créditos à fotografia, que consegue oscilar harmoniosamente entre três cenários-chave: a umidade/tristeza do presídio, a fachada da cidade do Governador e a crueldade do mundo externo na floresta. No entanto, a tentativa de cartunizar através de closes de semblantes à direita ou à esquerda de uma cena é tímida e falha, porque não é essa a abordagem em geral, portanto soa deslocada. Melhor se sai a trilha sonora, mais adequada à proposta de um drama humano, sem soar óbvio ou forçado, mas acaba, assim como tudo na série, virando um recurso repetitivo justamente nos episódios que se alongam.

E essa é a grande falha de TWDS03: sua abordagem novelística e televisiva força uma duração e um número de episódios para os quais não há história suficiente. Lá pela metade da temporada a narrativa volta para seu ritmo de segunda temporada, e embora as peças do tabuleiro se mexem, é lentamente e às vezes com a lógica distorcida. O horror que o Governador quer enfrentar lá fora – e daí o aquário de cabeças – diz um pouco de sua instabilidade, e é por isso que ele insiste atacar o grupo, embora seja mais conveniente para o roteiro essa ação do que funciona como desenvolvimento da história e dos personagens.

Vejamos o episódio Fill Up, por exemplo, que aborda por quase uma hora a conversa entre Rick e o Governador e contém longas cenas em que ambos não falam nada por longos segundos que parecem minutos, mas nenhum dos dois consegue interpretar qualquer sentimento. Viram automaticamente duas Michonnes de barba.

Já o antepenúltimo episódio da perseguição – e basicamente o episódio é apenas sobre isso – é meio uma homenagem a filmes-desastre-pós-apocalípticos, mas se arrasta de tal forma e é tão mal desempenhado que se torna tão enfadonho quanto a conversa entre Rick e o Governador de uma hora de duração. Isso faz lembrar que apesar dessa temporada ter várias cenas de tiroteio, nenhuma se torna emocionante. Talvez pela própria falta de carisma nos personagens ou o mais provável: os idealizadores não têm ideia de como realizar essas cenas.

Continuo torcendo para que os zumbis se tornem mais espertos que os humanos e tomem essa porcaria de planeta.

Wanderley Caloni, 2013-04-03. The Walking Dead - Terceira Temporada. The Walking Dead (USA, 2010). Dirigido por Ernest R. Dickerson, Greg Nicotero, Guy Ferland, David Boyd, Bill Gierhart, Michelle MacLaren, Tricia Brock, Seith Mann, Gwyneth Horder-Payton. Escrito por Charlie Adlard, Frank Darabont, Robert Kirkman, Tony Moore, Scott M. Gimple, Angela Kang, Glen Mazzara, Evan T. Reilly, Seth Hoffman. Com Andrew Lincoln, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, Melissa McBride, Lauren Cohan, Emily Kinney, Danai Gurira, Sonequa Martin-Green. IMDB.