O Vento Está Soprando

Oct 28, 2013

Imagens

Não há o que criticar da perfeição técnica dos estúdios Ghibli. Acostumados a entregar desenhos que já seriam motivo de prazer e satisfação só de olhar, os filmes dirigidos pelo mestre Hayao Miyazaki prezam também por uma história completa, uma trilha sonora, uma fotografia, direção de arte, efeitos sonoros que representam juntos sempre o ápice daquele estilo.

Aqui fugimos um pouco do mundo de fantasia de trabalhos como Ponyo e A Viagem de Chihiro para conhecermos a vida de Jiro (Hideaki Anno), um designer de aviões japonês que trabalhou durante a época da segunda guerra. O momento histórico é propício para uma análise dos últimos dias de um Japão pobre e medieval em direção à modernidade e o poder de destruição de uma Alemanha Nazista que se orgulhava de seus aviões bombardeiros. Interessante notar que existem dois assuntos levados à exaustão pela história. De um lado, Jiro e seus colegas se impressionam pela capacidade de engenharia e design dos alemães e de aviões em geral ignorando o destino dessas máquinas de guerra. Do outro, a necessidade do Japão de alcançar o nível tecnológico é ressaltado por um profundo sentimento de inferioridade de um país que ainda vivia na extrema pobreza de séculos atrás. Os detalhes históricos são abordados perifericamente, mas fica implícito que a mesma guerra recém-terminada contra a China será a mesma alavanca através da qual o país irá se sobressair.

Enquanto isso, uma história de amor de configura como um ato relapso, ainda que necessário, na vida de Jiro. Talvez como tentativa de humanizar um artista que caminha em direção à perfeição e não pode parar — um traço quase biográfico do próprio Miyazaki — a figura de Kayo (Mirai Shida), uma menina que Jiro conhece justamente através do vento (ela pega o seu chapéu) e de um desastre (um terremoto), consegue servir também como o lado humano da guerra, e o seu desenvolvimento na história não afirma nem nega a opinião do diretor sobre usar a destruição como ferramenta de evolução, mas expande nossa visão acerca do que pensavam os japoneses na época.

Mesmo a parte de lição de moral com história de amor se tornando o lado mais mal resolvido da trama, o conjunto de ideias por trás de alguém que só queria construir os mais belos aviões da época e tendo que ignorar que está no fundo construindo pirâmides — às custas de muita dor e sofrimento — já é o suficiente para amarrar boa parte daquele contexto histórico e o que ele representou para o povo japonês.

Wanderley Caloni, 2013-10-28. O Vento Está Soprando. Kaze tachinu (Japan, 2013). Dirigido por Hayao Miyazaki. Escrito por Hayao Miyazaki, Hayao Miyazaki, Mike Jones. Com Hideaki Anno, Hidetoshi Nishijima, Miori Takimoto, Masahiko Nishimura, Mansai Nomura, Jun Kunimura, Mirai Shida, Shinobu Ôtake, Morio Kazama. IMDB.