Thelma & Louise

2015/12/28

“Quantas vezes mais essas mulheres vão ser maltratadas?”, pergunta um personagem perto do final do filme. Se formos considerar tudo que aconteceu com essas mulheres e por que elas seguiram por esse caminho, veremos que além da pergunta ser retórica, ela se dirige muito mais para o espectador do que para as pessoas do filme.

Dirigido por Ridley Scott (Alien - O Oitavo Passageiro) e escrito por Callie Khouri na época em que as pessoas tinham ideias originais, Thelma & Louise é uma longa e saborosa aventura de descoberta feminina. Logo no começo da viagem combinada entre as duas, Thelma (Geena Davis), a carona de Louise (Susan Sarandon), “fuma” um cigarro apagado e se olha no retrovisor: está excitada com a possibilidade de fazer coisas que seu marido jamais concordaria. Próximo do fim, Thelma fuma realmente um cigarro, e esse é o rito de passagem para a liberdade mais merecido de todos.

Louise já possui uma história que a torna mais amarga. Ela já conhece a vida lá fora, e constantemente tenta alertar Thelma sobre isso. Ela carrega um trauma do Texas, e evita pisar novamente nesse estado. Thelma parece estar pisando pela primeira vez na vida, como adulta, fora de casa.

Juntas, elas representam momentos diferentes da típica vida de uma mulher, que normalmente estaria enclausurada na única forma de viver de uma sociedade por muito tempo: aterrorizada e sob as asas de seus “machos”. Porém, essas duas já começam o filme com coragem o suficiente para tirar umas mini-férias de fim de semana, sozinhas. Thelma, temendo pelo pior, traz consigo um lampião caso um atacante corte a energia do lugar onde vão ficar, e uma arma, dada pelo marido por sempre deixá-la até tarde sozinha em casa.

Ironicamente, o lampião não é usado. Mas a primeira tentativa de se divertir de Thelma se transforma na primeira tentativa de estupro de sua vida, o que culmina no uso da arma por Louise. Tragicamente, a tal “legítima defesa” que estamos acostumados a exaltar não serve para duas mulheres sozinhas na estrada sem autorização de seus homens. O instinto de Louise – ou até seu passado – já dizem que não vale a pena arriscar uma interpretação masculina do ocorrido. Sendo assim, começa uma grande aventura em um formato de fuga crescente, onde no caminho ainda iremos experimentar mais desse celebrado universo masculino e como mulheres sozinhas são nele tratados.

Se já não ficou claro, este é um filme de teor feminista, mas no bom sentido, e sem apelações. Até porque Thelma e Louise são personagens reais demais para ser apenas uma brincadeira de colegial revoltada.

Geena Davis cria uma Thelma espontânea, sempre atenta ao que a cerca, e sem medo de experimentar. Ainda não foi marcada como Louse foi. Note seu sorriso maroto e sua fala rápida. Perceba como ela está sempre se arrumando, em um contraponto com a amiga. Sua química com o personagem de Brad Pitt e os momentos em seu quarto de hotel se transformam em os mais tensos do filme justamente pelo cuidado na direção de Ridley Scott em sempre deixar o pacote de dinheiro em evidência sem soar alarmante, mas imerso em nosso subconsciente, conforme a conversa dos dois caminha para os delitos que o rapaz está acostumado a cometer. Quando ela diz a Louise que a decisão de não matar seu estuprador também a deixaria em maus lençóis como ficaram, mas em compensação da forma como as coisas aconteceram pelo menos está se divertindo, é trágico e tocante ao mesmo tempo. O senso de humor dessa menina é contagiante.

Susan Sarandon faz uma mulher com marcas de expressão que a lembram que há perigo constante onde quer que passem. Seu modo duro de lidar com as brincadeiras de Thelma não são rígidos o suficiente para que ela ganhe nossa antipatia, mas realistas o suficiente para a adotarmos como a mentora, a responsável, ou pelo menos a mais experiente. Ela trabalha de garçonete e está acostumada a levar adiante suas próprias decisões. Quando as coisas dão terrivelmente erradas e ela precisa atirar, ela não sai correndo em direção ao namorado. Ela já tem uma conta no banco e pede apenas um empréstimo. Essa garota sabe o que está fazendo, e o que faz está sob seu próprio comando. Ainda assim, podemos perceber a humanidade por trás dessa figura dura que Sarandon retrata com perfeição. Ela ri com a amiga, está empenhada em não se deixar abalar. É uma heroína tão boa quanto Ripley em Aliens, ainda que não precisa lutar com alienígenas que cospem ácido.

Fechando o ciclo de atores com um Harvey Keitel que faz um policial ciente de como as coisas funcionam para as mulheres, e assim fica como tradutor para espectadores do sexo masculino que ainda não entenderam todo o drama, Thelma & Louise vai às últimas consequências para provar o seu ponto. Seu maior feito é provar para nós que tudo aquilo tristemente poderia ter acontecido.

★★★★★ Thelma & Louise. USA, 1991. Direction: Ridley Scott. Script: Callie Khouri. Cast: Susan Sarandon. Geena Davis. Harvey Keitel. Michael Madsen. Christopher McDonald. Stephen Tobolowsky. Brad Pitt. Timothy Carhart. Lucinda Jenney. Edition: Thom Noble. Cinematography: Adrian Biddle. Soundtrack: Hans Zimmer. Runtime: 130. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Adventure. Category: movies

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