Thi Mai: Rumo ao Vietnam

May 16, 2018

Imagens

Este filme feministinha dirigido por Patricia Ferreira e escrito por Marta Sánchez (deu pra notar? ambas são mulheres!) irá trazer boas risadas. Sabe por quê? Porque este trio de mulheres (e um gay!) irão viver altas aventuras nesta terra inexplorada do Vietnã, onde comunistas vivem bem usando capitalismo para se curar de suas duas guerras. E de quebra um sistema de adoção de criancinhas que parece projeto (sem fins lucrativos) da família Pitt/Jolie. Foi muito machista da minha parte colocar o sobrenome do homem primeiro?

A história começa triste. A filha de uma delas morre (ah…). Além disso, a mais gata é demitida por ser velha (puxa…). E, como se não bastasse, a terceira é dona de casa. Que vida horrível! Mas quando a mãe em luto recebe a notícia que sua filha conseguiu adotar uma vietnamita bonitinha ela vê uma ótima forma de conseguir ajuda para sua loja de ferragens (brincadeira; é pela bondade mesmo) e com suas duas amigas partem nessa viagem tresloucada.

Adotar vietnamitas está na moda e há uma longa fila de espera. As autoridades realizam um processo burocrático que demora anos para ser aprovado. Porém, basta uma adoção ficar vaga para que segundos depois o próximo casal seja o próximo da fila e deixe a mãe em luto tento que lutar contra o tempo para conseguir a guarda de sua neta adotiva. Estranho, não? Nem tanto. Os acontecimentos em “Thi Mai” ocorrem por conveniência. Veja o orfanato, por exemplo, onde é terminantemente proibido estranhos passearem por lá. Em alguns momentos os portões estão fechados. Como quando a mãe em luto irá realizar a batidíssima cena da mulher de idade que vai pular o muro para se encontrar com sua neta. Porém, em outros momentos, os portões estão abertos e livres. Como no final do filme, quando… bem, se você já assistiu a algum filme desse gênero já sabe o final. Enfim.

A graça do filme nunca está na história, que é previsível, chatinha e até sonolenta em alguns pontos. Não, não, não. A graça reside nas atrizes, que conseguem ser engraçadas à sua maneira, abraçando seus estereótipos. Uma delas exibe uma inocência autêntica ao comer um prato de carne de cachorro junto de camponeses plantadoras de arroz. Afinal, este é um filme sobre o Vietnã e está no contrato: deverá mostrar plantadoras de arroz com chapéus cônicos. Além disso, todas vivem esta história como se fosse uma grande história de amor e superação.

E na verdade é. Porém, tanto diretora quanto roteirista parecem incapazes de enxergar o drama inerente mesmo quando ele está à frente de seus narizes. Note como a mãe em luto e seu marido vivem um período difícil no relacionamento, e a morte da filha torna tudo pior. Eles estão à beira da separação, o que seria muito natural de acontecer, e o surgimento de uma nova vida para eles cuidarem seria uma salvação vinda dos céus. Mas o marido não quer abandonar a ideia do luto a tempo. Tudo isso vai se abrindo nas conversas entre eles pelo telefone, mas nenhum detalhe desses é colocado em relevo no filme, que prefere focar em amantes homossexuais brigando, um romancezinho improvável entre um guia vietnamita e uma executiva de sucesso (porém demitida) e uma dona de casa que de repente se livra das amarras do desagradável marido.

No fundo, quem se importa? Talvez elas saibam que esse conteúdo é batido demais para trabalhar os elementos periféricos que tornam Thi Mai um filme bonitinho, quase acima da média. Mas são tantos os estereótipos que se torna tarefa ingrata. E pior que estereótipos que é possível dar risada são os estereótipos que se levam a sério. Como o viés feminista. Esse dá vontade de dar risada, mas não é pelo filme, mas pelos seus idealizadores.

Wanderley Caloni, 2018-05-16. Thi Mai, rumbo a Vietnam. Espanha, 2018. Escrito por Marta Sánchez, dirigido por Patricia Ferreira. Com Carmen Machi, Adriana Ozores, Aitana Sánchez-Gijón. IMDB.