Tinha Que Ser Você

Eu sei que o desfecho final possui vários defeitos. É esquemático porque segue à risca a cartilha das comédias românticas, o que acaba prejudicando demais aqueles dois personagens até então bem construídos. Está longe do clima depressivo de todo o resto, onde o diretor tenta amenizar com músicas bonitinhas e um pouco do desconcertante humor britânico (mas a partir de um dado momento, acompanhar a mãe paranoica nem é mais interessante).

Porém, e coloco um grande porém agora, sua introdução e desenvolvimento são exemplares. A colocação do personagem de Dustin Hoffman como pai deslocado de uma família e de um emprego aos quais já não pertence mais é tocante por vir aos poucos e com certo ritmo. Tanto o desempenho de Hoffman quanto os enquadramentos ressaltando seu isolamento do mundo contribuem para a criação de um ser humano tão complexo quanto Bill Murray em Encontros e Desencontros.

Já Emma Thompson desenvolve uma solteirona sem os dramas existenciais. Alguém que já se acostumou com os foras, e é levada pela mãe a se empenhar em uma vida a dois que já não acredita mais. Sua cena sozinha no banheiro é a mais sintomática e tocante nesse sentido, pois revela algo já existente em seus olhos, sua voz e seus trejeitos, mas ainda não declarada.

Os detalhes periféricos invadem nossa noção de realidade sem pedir licença. A trilha sonora, bonita, se coloca várias vezes para forçar a mudança de humor do quadro formado. Uma pena, pois enquanto Hoffman e Thompson nos aproximam do seu drama, a música nos afasta pelo seu melodrama barato. A insegurança do diretor quanto ao desempenho desses dois atores veteranos (ou do público mal formado) é risível.

Mesmo assim, seu primeiro desfecho é eficiente demais para não gostarmos dele. Tanto que poderíamos aceitar a tristeza e dor de uma partida repentina sem crise (pelo bem e integridade daquele casal). Não é o que acontece, contudo, o que gera o desapontamento do primeiro parágrafo desse texto.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-07-19 imdb