Titanic

2017/09/17

Vinte anos depois revejo este drama épico de James Cameron. Na época em que estava em cartaz assisti umas cinco vezes, então sabia de todos os movimentos de câmera e diálogos de cor. Mas o que torna este filme um exemplo de Cinema em seu máximo, mesmo sendo extremamente brega?

Pra começar, seu lado piegas e clichê é abraçado sem ressalvas. O filme de fato acredita no amor incondicional entre dois jovens que se conheceram no navio, pertencentes a duas vidas diferentes, duas classes sociais diferentes. Isso não é convincente pelo realismo, mas pela fantasia, como em Diário de uma Paixão. É a lupa do impossível, do sonho, do romântico.

E aqui a vida é idealizada como valor absoluto. Mais vale a pena viver, ainda que sem recursos, do que morrer lentamente obedecendo a regras da sociedade da época. O filme vai além, pois admite que vale a pena viver o caminho que faça a maior diferença para as pessoas – incluindo você mesmo – do que o caminho seguro e ensolarado. Isso para uma mulher faz muito mais sentido que para um homem. A mãe de Rose explica: “querida, nossas escolhas nunca são fáceis: somos mulheres”.

Rose é a protagonista dessa história e Jack é apenas um rostinho bonito na multidão. Kate Winslet ainda está em construção e faz uma persona que não está acostumada. Ela tem que fazer uma menina de 17 anos (na época com 22) mimada da aristocracia do início do século 20, quando o iluminismo levou as pessoas a pensarem que o homem era invencível. Ele construíra uma mansão sobre as águas para lembrá-lo disso. O Titanic foi o maior navio do mundo na época, o mais luxuoso, e afundou em sua viagem de estreia.

E a opinião do filme é clara desde o início: não foi apenas um navio que afundou. Ele marcou uma mudança importante na mentalidade da época. Seu naufrágio marca um golpe pesado do capitalismo em cima da nobreza tradicional. Talvez o último grande golpe antes de 29 estraçalhar os menos aptos ao novo jogo. James Cameron, que dirige e roteiriza, coloca todas as frases e momentos épicos deste acontecimento no filme, desde a “contagem de almas”, passando pela orquestra tocando até o fim e o capitão aceitando sua maldição.

A história de mais de três horas mistura o romance entre Jack e Rose com os detalhes históricos da tragédia, e ainda realiza um arco com Rose, ainda viva nos tempos atuais, que analisa as mudanças de sua vida a partir de seu romance a bordo.

Cameron em seu projeto construiu uma versão menor do navio em um lago gigantesco para realizar as tomadas da maneira mais realista possível. Há muita computação, que hoje soa mais ou menos datada, mas as cenas hoje clássicas estão lá, firmes e fortes. Além das cenas de ação, realistas, que irão figurar com certeza no panteão do Cinema. Pelo menos o comercial.

O projeto é grandioso, e tem suas merecidas cenas. Foi um processo desgastante, mas hoje vê-se que valeu a pena. A trilha sonora que evoca o pop junto do irlandês clássico. O figurino que consegue se mostrar sem parecer ridículo (quase não consegue). As piadas sem graça de um diretor obcecado em perfeição. Até as piadas parece que funcionam bem. É um filme fofinho. Ele te carrega no colo se você abrir seu coração, e te joga da poltrona se estiver interessado em complexidade. Não há nada de complexo aqui. Ícones pop, como Freud e Picasso, são citados para que tudo fique mais fácil para o espectador médio. Não é necessário complicar uma obra de arte feita sobre e para as massas. Aprecie o espetáculo do velho Cinema de Cecil B. de Mille nos típicos anos 90. O filme até que envelheceu bem. Se apesar de piegas ele se tornará um clássico moderno como Superman, só saberemos daqui a mais 20 anos…

★★★★★ Titanic. USA, 1997. Direction: James Cameron. Script: James Cameron. Cast: Leonardo DiCaprio (Jack Dawson). Kate Winslet (Rose Dewitt Bukater). Billy Zane (Cal Hockley). Kathy Bates (Molly Brown). Frances Fisher (Ruth Dewitt Bukater). Gloria Stuart (Old Rose). Bill Paxton (Brock Lovett). Bernard Hill (Captain Smith). David Warner (Spicer Lovejoy). Edition: Conrad Buff IV. James Cameron. Richard A. Harris. Cinematography: Russell Carpenter. Soundtrack: James Horner. Runtime: 194. Ratio: 1.78 : 1. Gender: Drama. Release: 13 April 2012 (3-D version). Category: movies Tags: cinema

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