Tô Ryca!

Selminha, ou Samantha Schmütz, faz aqui a pobretona padrão brasileira que mora no morro do Rio de Janeiro com sua amiga inseparável e igualmente quebrada Luane. Ambas com nome de pobre (e Selminha é de fato o nome dela, de RG) e sem muitas perspectivas de vida, ambas trabalham como frentista e são obrigadas a passar os perrengues do dia-a-dia de todo pobre: condução lotada, peguetes que não querem saber de compromisso e tudo o que você pode imaginar que os roteiristas Fil Braz e Vitor Brandt inspiradamente obteram do cotidiano padrão brasileiro, ligeiramente pintado como novela global.

Mas a atriz que faz Selminha não permite o disparate de a tornar uma caricatura à toa. A atriz Samantha Schmütz é eficiente no sentido de construir uma persona que pode participar de outras histórias e representar a pobretona brega e feia. Ela faz imitações guturais de pobre, se indigna como pobre. Ela confessa que rouba papel higiênico do trabalho como vingança (e coloca farofa no prato sem pesar no self-service). Ela está carregada de persona, e mesmo que estereotipada até as pontas desfiadas do seu cabelo, ela parece não se render, esgotando sua energia a todo custo.

A história é clichê, sem sentido, manipuladora e com lição de moral. Ignore-a se conseguir e foque em Selminha. Mas apenas um início: ela ganha uma herança de um parente distante (com direito a pet no leito de morte e vídeo bem produzido demais para ser real) que bate as botas e coloca uma regra bizarra em cima de sua fortuna: para Selminha obtê-la ela terá que consumir sem acumular 30 milhões de reais em um mês. Cerca de um milhão por dia. E ela não pode comprar nada, doar e jogar quase nada. Se ganhar fica com centenas de milhões. Se perder, fica como veio ao mundo (ligeiramente mais, pois de roupas).

O resultado é uma gastança brega, divertidinha e com alguns percalços imaginários. Há a trupe de advogados sisudos estilo mafiosos que por algum motivo desejam que Selminha não vença. Há seu secretário que é comprado por um cargo na empresa desses advogados (em vez de parte na fortuna). Há, claro, um dilema em não poder ajudar sua melhor amiga mesmo tendo o dinheiro (e não podendo contar para ninguém sobre o jogo; mais uma regra bizarra da herança bizarra).

Presa a um videogame primário, ela decide no terceiro ato se candidatar a prefeita do Rio para assim torrar toda sua grana em uma campanha. Por que não fez isso antes, e por que o secretário dela está tão empolgado com a campanha, já que ela é apenas para torrar grana? Eu não sei, e provavelmente o espectador nunca saberá. Resultado: nunca saberemos.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2018-01-11 imdb