Toast: A História de uma Criança com Fome

Este é um drama leve que conta com alguns segredos sutis em sua história e algumas atuações marcantes ou no mínimo bem corretas. Helena Bonham Carter é o destaque e o centro de um filme que poderia ser chato como biografia, mas consegue ser fascinante ainda que não conheçamos de quem se está falando.

A biografia no caso é de Nigel Slater, um famoso cozinheiro de TV. O filme conta sua infância conturbada, com a mãe moribunda, péssima em culinária doméstica, preferindo comprar tudo enlatado, e o pai arrumando uma nova esposa a partir de sua faxineira (Bonham Carter), e que se revela uma excelente, quase obsessiva, cozinheira.

Oscar Kennedy como o jovem Slater e Freddie Highmore (A Fantástica Fábrica de Chocolate) como o adolescente fazem um ótimo trabalho em personificarem uma criança em desenvolvimento, um tanto mimada, e tendo que conviver com mudanças que giram em torno de comida. Nigel aprecia o trabalho do jovem jardineiro da família, de uma maneira que só vamos perceber por completo o subtexto muito tempo depois. A única coisa que ele aprecia na cozinha de sua mãe é a torrada que ela de vez em quando prepara para ele, mas afetivamente ele possui um retorno muito melhor.

A direção de arte aqui é boa em resgatar uma época onde não se via grandes problemas em comida industrial e com plena gordura na cozinha. Tanto que não precisamos ser apresentados aos perigos de se comer demais naquela época, que é justamente o que o pai de Nigel começa a fazer depois que arruma a voluptuosa Mrs. Potter como faxineira e eventualmente cozinheira. A rivalidade entre os dois para conseguir a atenção do seu patrão/marido e pai é o estopim necessário para que Nigel saia das asas que qualquer um deles e comece a se descobrir, tanto como cozinheiro como ser humano.

A direção de S. J. Clarkson é ágil, mas ao mesmo tempo detalhista. Ainda que com algumas pequenas manipulações do roteiro de Lee Hall, que dramatiza um pouco além da conta as memórias do real Nigel Slater, é possível entender toda a trama apenas pelo ponto de vista de uma criança e adolescente, o que é admirável, pois nos mantém sempre com o ponto de vista do protagonista. No entanto, alguns detalhes parecem ser citados burocraticamente e não se encaixam direito na trama, como o fato do pai de Nigel ser mórmom, ou a sexualidade do futuro cozinheiro.

No entanto, admirável em ser coeso e com uma produção de época charmosa e bem-humorada – com direito a uma batedeira que surge de um fundo falso – “Toast” é um inusitado divertimento em um drama que consegue ser levado com leveza, mas ainda assim se manter presente. Um equilíbrio difícil de ser alcançado, mas que aqui parece algo que a ligação do herói com comida traduz muito bem.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-08-06 imdb