Trainspotting Sem Limites

Quando vi pela primeira vez Transpotting, aos meus 17 e poucos anos, ele ficou incrustado na minha mente por todo esse tempo. Até ontem, quando tudo que eu sabia visualmente sobre o filme foi apenas reafirmado, pois jamais havia sido esquecido. É um trabalho intenso que, acredito, atravessa gerações facilmente. Danny Boyle, de Quem Quer ser Um Milionário, dirige com uma economia visual absurda. Os diálogos são complementos de um filme para ser degustado principalmente pela visão. E que visão!

O jovem viciado Renton (inacreditavelmente Ewan McGregor) e seus amigos, caretas ou não, fazem parte de um arco dramático cuja protagonista é a heroína, uma droga pesada que se injeta e se viaja instantaneamente. As “viagens” do filme são cobertas de trucagens visuais feitas não por computador, mas por mudanças do cenário (como um quarto que se “estica”), da lente, cortes bruscos e até um bebê mecânico. Interessante notar que as idas e vindas de Renton parece não mudar sua opinião sobre a droga, que, segundo ele, é melhor do que sexo. Aliás, nem a própria sociedade em que ele vive parece fazer disso uma prioridade, pois em um momento da história a maior preocupação do garoto é não ser pego com uma menor de idade, e um dos amigos de Renton é conhecido por arrumar confusão para “cortar” os outros, mas não se priva de criticá-lo por usar a droga.

A porta de entrada para esse mundo parece não ter barreiras, aparentemente. Um dos seus amigos caretas, por exemplo, ao menor sinal de depressão por ter se separado — fruto de uma ótima sequência envolvendo a troca de fitas de vídeo — se sente seduzido pela chance de esquecer sua vida atual e mergulhar no mundo alternativo onde todos os problemas parecem desaparecer. A não ser, claro, que você tenha uma overdose e fique afundado em um tapete enquanto passeia por um táxi e é levado pelos corredores de um hospital.

Porém, a conclusão de Transpotting não poderia soar mais incisivo do que toda a sua precisa caracterização do efeito do vício. Afinal, o que é vício? É injetar substâncias ilegais em seu corpo ou passar uma vida correndo como ratos atrás de dinheiro para sustentar um estilo de vida massacrante? Qual o sentido de tudo isso? Renton já entrega a resposta enquanto atira em um cachorro (um ato não-incidental). O fato dessa cena estar no começo do filme parece querer amenizar as coisas como elas são.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-05-21 imdb