Transcendence: A Revolução

Tecnologia, consciência, religião, internet, conectividade, ecologia, inteligência artificial, moral, ética, filosofia, existência, nanotecnologia, computação quântica, privacidade, realidade virtual: todos representados em Transcendence, primeiro trabalho de direção de Wally Pfister, fotógrafo habitual dos trabalhos de Christopher Nolan (que aqui assina a produção) e primeiro trabalho de roteiro de Jack Paglen, um roteiro que já figurava na Black List: a lista hollywoodiana dos roteiros famosos que nunca são produzidos.

Assistindo ao filme é até possível entender o motivo dessa ressalva das produtoras em gastar alguns milhões: tentando erguer muitas bolas no ar ao mesmo tempo (a lista previamente citada), a história basicamente se resume em uma enumeração virtualmente infinita (e sem alma) de possibilidades que se tornam reais a partir do passo mais ambicioso tomado pelo ser humano: clonar o conjunto de “circuitos elétricos” que constituem nosso cérebro em um programa de computador que ganhará assim, da mesma forma que um ser humano, uma “consciência”. Mas o que é uma consciência nesse contexto? Aparentemente, isso ainda é um mistério completo, não sendo possível sequer identificar se a versão digital pode ser comparada à original, ou se um ser digital sente dor ao ter uma existência enclausurada em um mundo sem sentidos, o que denota nossa completa falta de moral no campo científico quando se fala de experimento em humanos (o que não deixa de ser verdade: ciência e moral não necessariamente caminham juntas).

No entanto, o que era menos aparente no início começa a revelar consequências nefastas ainda não-imaginadas (mas temidas) ao longo do início da história: o risco de extinção não apenas da espécie humana, mas de toda forma de vida natural. Curioso que uma história tão ambiciosa não se beneficia do roteiro de Paglen, que sequer se preocupa em inserir elementos que tornem esse temor visível em seus personagens. Personagens esses que sequer lembram pessoas de carne-e-osso. O cientista Will Caster (Johnny Depp) e sua esposa Evelyn (Rebecca Hall) já se apresentam como cientistas extremamente determinados, habilidosos em suas profissões e sem resquícios de emoção. Nesse sentido, é um casamento mais de ideias do que de personalidades, no que talvez seja a segunda decisão mais errada do filme, pois quando o cientista tem, ao falecer, uma segunda chance em forma de software, não há qualquer ponte de comunicação entre o “programa esperto demais para se submeter a humanos” e alguém que um dia foi um ser humano. Não há participações especiais suficientes de Morgam Freeman abraçando Rebecca Hall que conserte isso.

Porém, essa é apenas a segunda decisão errada. A primeira indubitavelmente é sua trilha sonora equivocada, composta por Mychael Danna como uma espécie de thriller dramático com ação, quando na verdade boa parte da “ação” ocorre dentro de nossas mentes, tentando entender uma miríade de conceitos avançados sobre tecnologia. Essa versão thriller de uma ficção científica refinada torna a experiência tensa na maioria dos momentos que ela não deveria ser. E ainda por cima a edição de David Rosenbloom evita diminuir o ritmo de eventos (talvez porque há eventos demais), mas isso não atrapalha, apenas evita que eu pisque por duas horas e pense em três linhas de raciocínio ao mesmo tempo enquanto acompanho as falas risíveis de um grupo de cientistas que parece mais incapaz de discutirem a seriedade da situação do que um grupo de ciber-terroristas liderados por Kate Mara.

Bom, e o que faz de Transcendence um filme digno de nota? Mais suas ideias do que a forma de explorá-las. A criação de um futuro distópico em uma questão de meses e a sombra de tecnologias que estão sendo estudadas e aprimoradas nesse momento se tornam o ingrediente básico de uma visão assustadora sobre o destino da nossa e qualquer outra civilização do universo que se esforce em melhorar sua capacidade de raciocínio e, consequentemente, suas realizações. Imagine o que seria o nosso “próximo passo”: biotecnologia, realidade virtual, nanotecnologia, computação quântica? Para onde tudo isso convergência? O fim de nossa espécie. Seremos tão moralmente superiores quando chegar a hora de dar espaço a versões claramente superiores de inteligência? Serão esses seres moralmente superiores a ponto de deixar-nos viver em um ambiente que não mais nos pertence? Seria esse um caminho natural, mas quando visto em um ritmo frenético de evolução assustador pela simples possibilidade de se tornar a única realidade do planeta em nossa própria geração?

Talvez esse seja um trabalho bem mais ambicioso do que como foi tratado. Ou talvez Matrix (1999), dos irmãos Wachowski, fosse uma visão mais romantizada deste que pode ser uma versão cientificamente realista (ou pseudo-realista) feita nos mesmos moldes do que Primer é para a viagem no tempo (embora Primer se beneficiasse de um roteiro inteligente e uma direção econômica). A única certeza que tenho é que minha mente só conseguiu diminuir o ritmo de pensamentos duas horas depois que o filme acabou. Depois do terror psicológico, eis que surge o terror mental: baseado em teorias científicas reais, eu realmente não quero mais pensar sobre o futuro da humanidade.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-10-23 imdb