Tres Anúncios Para Um Crime

Mar 13, 2018

Imagens

Parte de uma premissa e se torna surreal. Não é exatamente comédia ou drama, mas nem a vida pode ser definida de um jeito ou do outro. As pessoas nesse filme não são muito inteligentes, mas tentam – como um deles usa como lição – não ser um fracasso total. E o resultado é uma comédia de erros da vida real.

A história começa quando uma mãe em dor por oito meses pela morte violenta de sua filha paga por três outdoors questionando as autoridades pela sua incompetência. E quando conhecemos quem são essas autoridades, através de enquadramento peculiar (a delegacia de polícia fica em frente a rua da loja de anúncios), fica claro o que ela está dizendo. O xerife está com câncer e há policiais truculentos cujo estereótipo do sul já virou regra desde Thelma e Louise: preferem torturar negros do que pegar estupradores.

Mas analisando o cerne da questão, não é que eles são realmente mal intencionados. São apenas estúpidos, mesmo. Como a maioria da raça humana. Não há surpresa em constatar isso, apenas risadas aleatórias.

E por outro lado, a morte não parece ser algo muito pesado pelas bandas do Sul dos EUA. Quando uma reviravolta envolvendo mais uma morte ocorre na primeira parte da história, ela pesa por trinta segundos. Para depois dar início a mais uma série de eventos que parecem não estar particularmente sob o controle de ninguém. É claro que é pesado ver um policial – em plano sequência – derrubando alguém de um prédio e espancando a pessoa. E talvez, apenas talvez, seja tão pesado quanto ver policiais torturando negros. Quem sabe a cor da pele não tenha a ver com compaixão?

O controle não parece estar nem sob o julgo da suposta heroína, interpretada por Frances McDormand como a mãe durona que se tornou mais dura ainda que a vida que teve apanhando do seu ex e sendo trocada por uma adolescente. Seu filho é o único que lhe sobrou, e mesmo assim sua função é aguardar a hora de ir embora da casa dessa maluca.

O que não quer dizer que ela não está com a razão desde o começo. E McDormand faz um verdadeiro esforço para manter isso íntegro até o fim, com resultados mistos. É de se perguntar se esta é uma história com alguma moral ou uma mera descrição corrida de eventos da seção de cotidiano de um jornal local.

Quem realmente faz um “arco” aqui é Sam Rockwell, como o oficial declaradamente estúpido Dixon. O rapaz fica por conta das piada óbvias e que não funcionam sob a mais que comprovada incompetência completa das autoridades estatais. E de “filhinho da mamãe vivendo com ela aos trinta” ele vai para um estado que parece querer reverter essa espiral de ódio e violência sulista para “o bem”, seja lá qual for. Ele lê uma carta de seu xerife onde ele diz que o que ele precisa é amor. Não inteligência. Mas ele lê a carta iluminada por uma lanterna enquanto atrás dele há labaredas de fogo.

E se você estiver em dúvida sobre o que tudo isso significa, é porque está pensando demais. McDormand está no filme, sim, mas isto não é Fargo. Não há caso a ser resolvido, e, para ser sincero, este talvez seja um retrato mais realista de como os casos são resolvidos na prática: não são.

Exceto o caso da existência humana. Somos animais cujas ações não importa e não existe um deus. Tentar negar isso analisando as pessoas desse filme, sabendo que a maioria da vida real é assim. Isso sim é uma tarefa estúpida.

Wanderley Caloni, 2018-03-13. Tres Anúncios Para Um Crime. IMDB.