Três Homens em Conflito

Dec 20, 2010

Imagens

Esse faroeste de Leone foi narrado em um contexto histórico e, por isso mesmo, com muitas pitadas de realismo nas cenas, mesmo com os absurdos hilários a que estamos acostumados em filmes do gênero. Nesse longa de quase três horas de duração teremos três pistoleiros decididos a encontrar uma fortuna escondida, mas para isso terão que passar por várias provações na época da guerra da Sessesão.

Uma característica marcante e que nos torna ainda mais cúmplices das peripécias dos personagens é o ângulo e a forma como a câmera se posiciona em cada cena. Fora os enquadramentos magníficos na maior widescreen que o cinema já teve, exacerbados ainda mais pela belíssima fotografia do filme, que é belíssima exatamente porque evocar imagens históricas. Leone faz questão que sintamos o ponto de vista dos personagens ou da situação em cada quadro, com uma continuidade que é sempre eficiente, pois nos coloca na posição sempre mais privilegiada da cena em que podemos ver a ação e ao mesmo tempo interpretá-la.

A trilha sonora principal de Morricone lembra a de um animal, que inclusive podemos ouvir nos minutos iniciais, o que comenta acertadamente o estilo cartunesco do longa. Note, por exemplo, como a apresentação dos personagens (no original, o filme se chama “O Bom, o Mau e o Feio”) é feita congelando a tela com o ator e colocando seu “título”, logo depois descongelando a mesma cena. Algo que Tarantino usou mais como homenagem e menos como plágio do diretor.

Há exemplos bem vivos desse estilo quadrinhos como no movimento/ângulo subjetivo da câmera quando Tuco (Eli Wallach), um dos três personagens, chegando à cidade e desmaiando, o desmaio é filmado pela câmera, e ela “fica tonta” e cai. Há exemplos também de posicionamento da câmera: quando vemos pela primeira vez Clint Eastwood — que aqui faz mais uma vez o papel do homem misterioso — , a câmera foca seu paletó, e não o seu rosto, pois é ali que está escondida a arma que entrará em ação nos próximos quadros. Mais um exemplo: quando Tuco cai na frente da delegacia, o próximo corte é feito de baixo pra cima, como se estivéssemos vendo do ponto de vista dele estirado no chão.

Fora o uso constante dos ângulos, há câmeras giratórias magníficas por todo o filme que fazem rima com a montagem que oscila entre o tenso e o cômico, sendo um dos primeiros o enforcamento, que passa pelo público que assiste enquanto ouvimos todos os crimes cometidos pelo condenado. Na montagem, a sequência que mostra os capangas subindo até o quarto de hotel onde está Clint, e ao mesmo tempo com cortes dele montando a arma cria tensão exatamente por não sabermos quando eles chegarão, e se dará tempo de montar a arma.

Uma segunda trilha, original e belíssima é a da caminhada do deserto, pois ela evoca a passagem do tempo muito bem, e essa noção de enjoo e delírio. Os enquadramentos na cena do deserto, aliás, são todas excepcionais, com destaque para duas onde Clint está na frente e o bandido no cavalo atrás e, depois, uma em que o bandido está bebendo água na sombra do cavalo e vemos Clint andando atrás. Tudo sem perder a majestade do cenário que é o deserto, personagem sempre principal desse trecho.

Há outro belíssimo ângulo na cena do deserto quando vemos Clint descendo uma duna, desfalecido. A posição da câmera é bem baixa, para dar ideia do cansaço do personagem. Exemplo de câmera subjetiva: quando Tuco tenta acordar o amigo no hospital, a câmera que mostra sua face perde o foco levemente, sem corte, como se já sofresse a influência da visão de Clint, ainda desacordado.

E os diálogos, poucos, pois aqueles homens não são de falar muito, possuem momentos de bilhantismo singular, pois com poucas palavras resumem tudo que acabamos de ver. Quando Clint e Tudo tentam fingir serem do exército que se aproxima, Tuco exclama “Vamos nos dar bem, porque Deus odeia os ianques, também!”, no que, quando Clint vê que foram enganados, e se tratava do outro exército, exclama “Não vamos não, porque Deus também odeia os idiotas”.

A atuação de Tuco, então, é uma delícia à parte, pois suas expressões, exageradas, mas sinceras, demonstram um personagem que está exatamente de acordo com o que vemos na tela; na forma de se comportar e agir em todos os momentos, com sua ingenuidade e ignorância, mas também maldade e malícia. É o mais carismáticos dos personagens, sem dúvida, e alívio cômico ultra-eficiente em vários momentos do longa.

Os cenários seguem por todo o filme grandiosos. Pode-se dizer que qualquer momento podemos parar o filme e tem-se um quadro belíssimo, fenômeno que se repetirá no irretocável Era uma Vez no Oeste.

Exemplo de diálogo brilhante, além de alívio cômico: após ser ameaçado por um homem armado enquanto tomava banho em uma banheira de espuma, Tuco atira e mata o sujeito, dizendo em seguida “Se vai disparar, dispara, e não fala”.

Também é muito bom notar que Leone dá bastante esmero aos detalhes. Logo após a cena da banheira, temos os dois amigos na rua. Tuco está vestido, mas ainda podemos ver algumas manchas de sabão em seu rosto.

A forma como são capturados em direção ao cemitério, e o enquadramento posterior, mostrando toda a grandiosidade do acampamento, espelha esse esmero com o posicionamento da câmera.

Há um realismo e grandiosíssimo na batalha da ponte que parece que somos transportados para aquele tempo, e o que estamos vendo são atores conhecidos no meio de um evento que realmente aconteceu.

Quando Tuco tenta encontrar o túmulo no cemitério há uma bela passagem de travelling sem foco pelas jazidas, enquanto logo após o cineasta coloca Tuco em foco e um travelling por todos os túmulos, rapidamente, em um movimento constante.

A cena do “trielo” (uma invenção para “duelo de três”) é a mais tensa, antes mesmo de começar, pois já sabemos de antemão que os três atiram muito bem, como pudemos comprovar em mais de duas horas de filme.

Exemplo de diálogo brilhante: “Existem dois tipos de pessoas com armas: descarregadas e as que cavam; você cava”.

O enquadramento da forca, quando Tuco olha para cima, é hilária e simples, pois coloca a cabeça de Tuco já dentro da corda.

Wanderley Caloni, 2010-12-20. Três Homens em Conflito. Il buono, il brutto, il cattivo. (Italy, 1966). Dirigido por Sergio Leone. Escrito por Luciano Vincenzoni, Sergio Leone, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni, Sergio Leone, Mickey Knox. Com Eli Wallach, Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Aldo Giuffrè, Luigi Pistilli, Rada Rassimov, Enzo Petito, Claudio Scarchilli, John Bartha. IMDB.