Trolls

Um milagre acontece. E está um bom ano para milagres em animação. trolls, assim como Angry Birds como adaptação de games e Zootopia como a contemporaneidade da vida social, consegue se tornar um exemplo ainda melhor de como pegar um fiapo de argumento – brinquedos feios da década de 8090 – e transformar em uma ode à felicidade, à referência de uma era, ao retorno da simples e não-cínica vida comum.

Para isso ele conta com uma quantidade monstruosa de canções famosas de várias décadas em vários formatos, que fazem o percurso histórico do dance e do pop através das simpáticas figuras de um grupo de pequenas criaturas que cantam, dançam e se abraçam de hora em hora – essa basicamente é a cultura deles – sempre incentivados por sua amada princesa, que conta as histórias de seu povo através de recortes fofinhos, e seu leal rei, que não abandona ninguém quando sua aldeia é invadida por terríveis “gigantes” (para eles) chamados de Bergens.

A sequência de fuga é narrada como um épico, com uma trilha grandiosa e todo o peso que isso acarreta. Isso não impede que logo os trolls se recuperem e voltem a contar os minutos até o próximo abraço coletivo. De certa forma, a luta pela felicidade parece tornar o grupo sempre unido.

Exceto pela figura do antipático Branch (Justin Timberlake no original), um troll que evita a todo custo os rituais de seu povo, e que, diferente de todos eles, mantém em sua pele uma cor escura e de aspecto apagado. Todos os trolls são coloridíssimos, e até a fauna e flora que os cerca contém cores surreais. Isso sem contar, é claro, com os mais enfeitados ainda, que soltam purpurina de orifícios que geralmente contém elementos desagradáveis da vida humana.

Mas este não é um filme sobre humanos, mas como duas raças podem ser inimigas baseado de maneira acéfala em um ritual que diz que para os Bergens, a única forma de ser feliz é se alimentando de um troll. Bergens e Branch, logo se percebe, possuem algo em comum: desistiram de buscar a felicidade em si mesmos e na comunicação com os outros. Há uma sequência musical em que eles são apresentados em uma remixagem inspiradíssima de uma música da banda virtual Gorillaz de Justin Timberlake.

Aliás, desconfio que o dedo de Timberlake na produção e dublagem do filme conseguiu reunir toda a sequência musical de sua trilha sonora, em uma coleção de direitos autorais que formam uma mensagem clara através desses cabeludinhos coloridíssimos. Afinal de contas, a maioria das músicas é psicodelia pura que caminham desde uma época inocente (anos 60, 70) até as revisões do passado (anos 2000).

Além disso, o uso inspirado da união entre os dois mundos torna a história de amor contida entre dois jovens Bergens o núcleo emocional da história em uma recapitulação de Cinderela que também homenageia clássicos da Disney em um formato solto em sua irretocável primeira metade, e que aos poucos dá lugar a uma estrutura quase convencional em seus finalmente.

É preciso citar o apuro técnico da animação, que consegue criar feições humanas extremamente realistas no rosto dos bonecos – como um sorriso preocupado da princesa Poppy ao se fechar uma porta – e que aliado à criatividade dos roteiristas, cria diferentes formas de se utilizar os longos e flexíveis cabelos dos pequeninos, desde chicotes até camuflagem. A direção frenética da dupla Walt Dohrn e Mike Mitchell não dão tempo o suficiente para pensarmos a respeito do que vemos, o que é ótimos se entendermos que não há espaço em um filme sobre brinquedos de se voltar para tramas complexas e reviravoltas inesperadas.

Não, tudo é previsível em trolls, e ainda assim tudo se torna extremamente cativante e emocionante. Não é possível evitar o clichê no momento em que True Colors, uma remasterização Timberlake de Cyndi Lauper, finalmente é cantada. Porém, toda a pausa dramática para esse momento torna trolls um filme que encanta pela capacidade de contar história abraçando a história que tem, sem ressalvas de soar simplista ou brega demais. Até porque esta é quase também uma ode muito bem feita à “breguice” dos hits do momento.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-11-17 imdb