Trolls

Nov 17, 2016

Imagens

Um milagre acontece. E está um bom ano para milagres em animação. trolls, assim como Angry Birds como adaptação de games e Zootopia como a contemporaneidade da vida social, consegue se tornar um exemplo ainda melhor de como pegar um fiapo de argumento – brinquedos feios da década de 8090 – e transformar em uma ode à felicidade, à referência de uma era, ao retorno da simples e não-cínica vida comum.

Para isso ele conta com uma quantidade monstruosa de canções famosas de várias décadas em vários formatos, que fazem o percurso histórico do dance e do pop através das simpáticas figuras de um grupo de pequenas criaturas que cantam, dançam e se abraçam de hora em hora – essa basicamente é a cultura deles – sempre incentivados por sua amada princesa, que conta as histórias de seu povo através de recortes fofinhos, e seu leal rei, que não abandona ninguém quando sua aldeia é invadida por terríveis “gigantes” (para eles) chamados de Bergens.

A sequência de fuga é narrada como um épico, com uma trilha grandiosa e todo o peso que isso acarreta. Isso não impede que logo os trolls se recuperem e voltem a contar os minutos até o próximo abraço coletivo. De certa forma, a luta pela felicidade parece tornar o grupo sempre unido.

Exceto pela figura do antipático Branch (Justin Timberlake no original), um troll que evita a todo custo os rituais de seu povo, e que, diferente de todos eles, mantém em sua pele uma cor escura e de aspecto apagado. Todos os trolls são coloridíssimos, e até a fauna e flora que os cerca contém cores surreais. Isso sem contar, é claro, com os mais enfeitados ainda, que soltam purpurina de orifícios que geralmente contém elementos desagradáveis da vida humana.

Mas este não é um filme sobre humanos, mas como duas raças podem ser inimigas baseado de maneira acéfala em um ritual que diz que para os Bergens, a única forma de ser feliz é se alimentando de um troll. Bergens e Branch, logo se percebe, possuem algo em comum: desistiram de buscar a felicidade em si mesmos e na comunicação com os outros. Há uma sequência musical em que eles são apresentados em uma remixagem inspiradíssima de uma música da banda virtual Gorillaz de Justin Timberlake.

Aliás, desconfio que o dedo de Timberlake na produção e dublagem do filme conseguiu reunir toda a sequência musical de sua trilha sonora, em uma coleção de direitos autorais que formam uma mensagem clara através desses cabeludinhos coloridíssimos. Afinal de contas, a maioria das músicas é psicodelia pura que caminham desde uma época inocente (anos 60, 70) até as revisões do passado (anos 2000).

Além disso, o uso inspirado da união entre os dois mundos torna a história de amor contida entre dois jovens Bergens o núcleo emocional da história em uma recapitulação de Cinderela que também homenageia clássicos da Disney em um formato solto em sua irretocável primeira metade, e que aos poucos dá lugar a uma estrutura quase convencional em seus finalmente.

É preciso citar o apuro técnico da animação, que consegue criar feições humanas extremamente realistas no rosto dos bonecos – como um sorriso preocupado da princesa Poppy ao se fechar uma porta – e que aliado à criatividade dos roteiristas, cria diferentes formas de se utilizar os longos e flexíveis cabelos dos pequeninos, desde chicotes até camuflagem. A direção frenética da dupla Walt Dohrn e Mike Mitchell não dão tempo o suficiente para pensarmos a respeito do que vemos, o que é ótimos se entendermos que não há espaço em um filme sobre brinquedos de se voltar para tramas complexas e reviravoltas inesperadas.

Não, tudo é previsível em trolls, e ainda assim tudo se torna extremamente cativante e emocionante. Não é possível evitar o clichê no momento em que True Colors, uma remasterização Timberlake de Cyndi Lauper, finalmente é cantada. Porém, toda a pausa dramática para esse momento torna trolls um filme que encanta pela capacidade de contar história abraçando a história que tem, sem ressalvas de soar simplista ou brega demais. Até porque esta é quase também uma ode muito bem feita à “breguice” dos hits do momento.

Wanderley Caloni, 2016-11-17. Trolls. Trolls (USA, 2016). Dirigido por Walt Dohrn, Mike Mitchell. Escrito por Jonathan Aibel, Glenn Berger, Erica Rivinoja, Thomas Dam. Com Anna Kendrick (Poppy), Justin Timberlake (Branch), Zooey Deschanel (Bridget), Christopher Mintz-Plasse (King Gristle), Christine Baranski (Chef), Russell Brand (Creek), Gwen Stefani (DJ Suki), John Cleese (King Gristle Sr.), James Corden (Biggie). IMDB.