Tron: o Legado é Daft Punk, Direção de Arte e o desejo de uma história de verdade

O universo redescoberto pela Disney nesta continuação da saga Tron, que revolucionou em sua época os filmes feitos por computador, demonstra aqui todo o potencial do CGI em um universo não apenas construído essencialmente por computadores, mas rodando dentro de um. Como cult dos anos 80, que revolucionou a computação gráfica na época. Hoje, o uso de televisores 3D e a câmera indo em foco da imagem 2D de um deles pode ser considerada a única revolução desse filme.

Além de Olivia Wilde, obviamente, ter curvas lindas, apreciadas de uma maneira melhor ao melhor estilo 3D com trilha musical de Daft Punk, a aventura Disney conta mais com a apresentação desse mundo, provavelmente já de olho em continuações, jogos, etc, do que com uma história minimamente interessante. Se trata do velho plot do filho que perde o pai quando pequeno, vive à sua sombra, um pouco revoltado (revoltado estilo bilionário que quer dar sua propriedade intelectual de graça) e que demonstra estar pronto para ser digitalizado e sobreviver em um mundo de jogos onde o game over é sua própria vida.

Deixe-me explicar o que a trilha sonora de Daft Punk significa neste filme. Ela é visceral, parte integrante e protagonista do começo ao fim. Ela representa tudo o que sabemos até hoje dessa cultura de video-games, de música techno e de hits temporários, repetitivos e sem sentido. É nosso niilismo popularizado em notas digitais que são compostas cada vez mais com a ajuda de um computador. Estar vivenciando uma experiência em um mundo digital ouvindo uma música percursiva dessas é como um deleite extrasensorial. A sua tensão combinada com a eternidade do dia (não há dia e noite no mundo digital) e a efemeridade da existência (programas podem ser destruídos em questão de segundos) colocam este filme muito acima do que ele mereceria com sua narrativa preguiçosa e arrastada.

A presença de Jeff Bridges no projeto traz um pouco de nostalgia e uma curiosidade. Bridges se tornou um ator muito mais interessante com o passar dos anos. Ele foi um achado no Tron original, mas aqui ele parece uma participação de luxo. Porém, o protagonista de O Grande Lebowski se joga aqui como no automático, e embora sua dicção emotiva e sua postura pertinente em defender seu mundo e sua visão pessimista sobre seu destino, ou em dizer falas ligeiramente embaraçosas torne-as superiores ao roteiro, a decepção bate mais forte que o encantamento.

“Tron: O Legado” não se tornou um hit da Disney assim como John Carter, Príncipe da Pérsia e tantas outras apostas furadas que a produtora fez em uma má época de lançamentos. Ela é uma das poucas produtoras que pode se dar ao luxo de gastar seus milhões obtidos em royalties com filmes da Pixar e suas centenárias animações que ainda (tentam) encantar crianças em todo o mundo e vender princesas em todos os seus formatos. Mas em Tron o objetivo era um pouco mais dark, e não foi nenhuma surpresa constatar que os limites sonhadores da produtora politicamente correta foi extremamente inadequado para o voo digital que Tron deveria fazer em seu segundo filme.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2018-05-14. TRON: Legacy (USA, 2010). Dirigido por Joseph Kosinski. Escrito por Edward Kitsis, Adam Horowitz, Edward Kitsis, Adam Horowitz, Brian Klugman, Lee Sternthal, Steven Lisberger, Bonnie MacBird. Com Jeff Bridges, Garrett Hedlund, Olivia Wilde, Bruce Boxleitner, James Frain, Beau Garrett, Michael Sheen, Anis Cheurfa, Serinda Swan. IMDB.