Truman

Esse talvez seja um dos mais decepcionantes filmes com Ricardo Darín, mas não deixa de ser interessante em alguns momentos, como quando discute a diferença entre ser tratado como um ser humano ordinário e um ser humano moribundo.

A história é simples e foi feita para ser tocante. Tem até um cachorro – que leva o título. Seu dono, Julián, está há um ano combatendo um câncer do pulmão e resolveu desistir. Seu cunhado, a pessoa mais próxima dele nesse momento, vive do outro lado do mundo. Ao visita-lo, feridas serão abertas e questões, resolvidas.

Porém, para seu cunhado e melhor amigo, seu senso prático (e divertidamente egoísta) lhe diz que tudo está mais ou menos resolvido: não se tira a liberdade de alguém só porque se gosta muito desse alguém (ou, nesse caso, gosta, mas tem bons motivos para criticá-la). Há pessoas mais sentimentais, apegadas, que irão desenvolver seu ódio pessoal por não poder controlar o ente querido.

Esse apunhado de clichês e cutucadas pessoais está bem embalada em uma história leve, em que crescem como personagens os dois principais, mas lhe falta situações dignas das atuações do elenco.

E o cachorro, por mais que se pense nele, é muito difícil para encontrar um significado. Este é um filme simbólico de difícil acesso, se preferir, ou um drama água-com-açúcar. Em ambos os casos, simplesmente medíocre.

Note como ele tenta puxar assunto de onde não há. Uma família de lésbicas que adota um menino russo. Um filho morando na Holanda. Qual o significado de tudo isso? A universalidade da morte? A morte seque é citada; apenas a decisão de uma pessoa de não lutar mais contra ela.

Darín, como sempre, representa um ser humano adequado para o que vive. Impaciente e surpreso com a reação das pessoas em sua volta. De certa forma, me lembra um amigo meu que não possui o famoso “simancol”, mas acaba divertindo exatamente por isso.

Porém, mais divertido ainda, apesar de muitas vezes soar repetitivo, é seu amigo. Interpretado por Javier Cámara como alguém que simplesmente veio fazer um favor, a sua luta interna entre o que ama e o que odeia no amigo é o ponto forte de sua amizade.

Criando mais personagens secundários do que deveria, simplesmente para florear um pouco mais uma história que não sabe o que dizer de um tema delicado, Truman vira um passatempo leve demais para ser levado a sério, mas constitui uma diversão despretensiosa e livre de choro à toa. A não ser que você se emocione com qualquer coisa.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-05-03 imdb