Trumbo

Feb 9, 2016

Imagens

Bryan Cranston vive aqui um personagem bem diferente de seu Walter White na série que o tornou conhecido, Breaking Bad. Dalton Trumbo é um idealista, otimista e bem-humorado. Escrevia roteiros para Hollywood durante a tenebrosa época do Macartismo, quando os americanos foram influenciados a ver qualquer pessoa que ousasse defender os ideais comunistas como um traidor da nação (como culpá-los, não é mesmo?). Essa febre atingiu a Meca do Cinema através de uma lista negra, onde constavam todos os cineastas que eram “denunciados”, em um típico exemplo de teatro Hollywoodiano. Nessa época também era comum fazer algo que hoje é motivo de vergonha e escárnio: se declarar comunista.

E era justamente assim que se auto-proclamava o roteirista Dalton Trumbo, que se filiou ao Partido Comunista americano e conseguiu reunir diversos colegas que também acreditavam em sua causa. A bipolaridade maluca que atinge de tempos em tempos a América Latina também atingia os EUA naquela época, e o ódio disseminado entre a população serviu para que fosse realizado o maior boicote já visto entre profissionais de cinema.

O filme de Jay Roach (Entrando Numa Fria) passa metade do tempo narrando esses acontecimentos e ironicamente dar nomes aos bois republicanos parece ser algo primordial na história baseada no romance de Bruce Cook. Essa metade do filme ganha pontos pelo controle absoluto da passagem dos anos e a intolerância cada vez maior dos americanos, que estão prestes a entrar para a Guerra Fria, e perde pontos por se esquecer das motivações do congresso americano e por insistir na dualidade do bem contra o mal, um maniqueísmo que ameaça severamente o resto da projeção.

Felizmente, a humanidade trazida por Bryan Cranston insiste em quebrar esse maniqueísmo a cada novo trejeito e nova fala sua, que seu companheiro, Arlen Hird (Louis C.K.), insiste em dizer que é proferido como se tudo que Trumbo diz será gravado em uma pedra. Entendemos as motivações de Trumbo por mais que estas estejam equivocadas, e seus movimentos são sempre positivos para que a empatia recaia sobre seu personagem. Estratégia diferente e mal sucedida tem seus “arqui-inimigos”, encabeçados em nível de caricaturas por Hedda Hopper (Helen Mirren), atriz e escritora influente de uma coluna de fofocas, e John Wayne (David James Elliott), o ator que era o espírito americano nos filmes de faroeste. Dos dois, ao menos Wayne possui a motivação exata da repulsa que sente por Trumbo e sua trupe: eles ameaçam “o jeito americano de viver”.

A segunda metade do filme é quando realmente conhecemos o protagonista através de uma vida enclausurada e sem possibilidades de assinar qualquer roteiro que escreva. É nesse momento que surgem figuras igualmente difíceis de serem representadas, como Kirk Douglas (Dean O’Gorman) e o diretor Otto Preminger (Christian Berkel), mas que se beneficiam do equilíbrio anterior fornecido pelo sempre espirituoso John Goodman, que aqui faz um produtor canastrão de filmes de qualidade duvidosa.

Trumbo é um trabalho que tenta desvendar uma das personalidades mais influentes da época, mas como quase todo trabalho do gênero, raramente consegue. Felizmente, a história construída por John McNamara é interessante o suficiente, tanto por parte da história do Cinema como também pelas figuras ilustres que já povoam o imaginário coletivo. Ver Kirk Douglas comentando que Kubrick é um diretor extremamente difícil, e a pior parte é que ele está certo, é impagável.

Dessa forma, temos um filme supostamente bibliográfico que tenta revisitar uma época sombria e intolerante, e que dificilmente consegue mais do que mostrar como pessoas com poder de influência conseguem tornar a vida de muitas pessoas um pesadelo. É repleto de contradições, como as pessoas são, e isso o torna, tanto quanto Cranston, um filme mais humano. Uma pessoa se declara comunista e ainda assim anseia por ter seu nome reconhecido. Esse é o peso das contradições de uma guerra que já foi ganha pela lógica, mas que precisava de alguns corpos para exibir.

Wanderley Caloni, 2016-02-09. Trumbo. Trumbo (USA, 2015). Dirigido por Jay Roach. Escrito por John McNamara, Bruce Cook. Com Bryan Cranston, Michael Stuhlbarg, David Maldonado, John Getz, Diane Lane, Laura Flannery, Helen Mirren, David James Elliott, Toby Nichols. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).