Truque de Mestre

Abracadabra! Surge um péssimo filme. Embalado naquele formato de reviravoltas, este filme não contém nenhuma, pois ele nunca nos faz crer em X para depois revelar Y. Todas suas “bombásticas” revelações são simplesmente isso: revelações. Geralmente algo novo que não tinha qualquer relação com o que foi mostrado até agora, e se tem alguma, é jogada no ar como uma carta qualquer.

A história gira em torno de quatro talentosos prestidigitadores do show business que recebem o chamado de uma organização milenar chamada O Olho, e é assim que se conhecem. Nenhum deles possui muita personalidade, apenas diferentes habilidades na arte de iludir (ah, e um romance não-resolvido que continua não-resolvido o filme inteiro). A câmera gira constantemente em torno deles e a plateia constantemente vai ao delírio, aplaudindo e gritando, até quando é mostrado o inocente truque do coelho na caixa espelhada.

Esse é um filme que tenta se erguer pelo elenco, que se dá ao luxo de ter Michael Caine e Morgan Freeman digladiando-se em torno do grupo de mágicos (não fica muito claro se o personagem de Freeman é contra o grupo de mágicos ou contra personagem de Caine, nem muito a motivação de Caine pelo grupo: esse é um embate que vale pelo próprio embate). Se dá ao luxo também de criar uma premissa de ilusionistas com a síndrome de Robin Hood sem maiores explicações. O responsável pelo plano executado pelos Quatro Cavaleiros (como são chamados) nunca se revela, mas nunca sentimos falta, o que acaba tornando a última revelação não apenas forçada, mas broxante.

Aqui vale uma menção desonrosa à direção/edição epilética de Louis Leterrier (acostumado a projetos encomendados como o remake de Fúria de Titãs e um filme de Jet Li, Cão de Briga). Mesmo com todas as falhas de roteiro escrito a seis mãos, algumas sequências idealizadas por Leterrier poderiam se beneficiar de uma ação quase constante. Porém, todas as perseguições, seja a pé ou de carro, sofrem de uma desorientação espacial problemática do começo ao fim, nunca sendo possível saber o que, como, onde. Na perseguição de carros isso fica particularmente irritante, pois todos os carros são iguais.

Mas voltemos ao roteiro, pois ele consegue piorar ainda mais o que já havia de medíocre no início da história. Você nunca irá encontrar, por exemplo, diálogos diretos, mas apenas floreios que revelam os delírios de auto-importância do projeto. Estamos falando de personagens que teoricamente teriam algo de importante a dizer, mas que permanecem falando de coisas vagas ou simplesmente pedestres. E se o grande criador de tensão é o “próximo grande truque”, ele simplesmente não nos interessa depois que o primeiro se revelou tão idiota.

E por falar em floreio, não bastasse a edição de som capenga, que deixa vozes e efeitos sem muito balanço entre eles (às vezes a música é desnecessária alta, outras os diálogos), a trilha sonora de Brian Tyler (Homem de Ferro 3) é uma mistura de Código da Vinci com Jogos Vorazes, mas sem remeter nem a um nem a outro. Repetitiva e monótona, serve perfeitamente a séries genéricas de televisão. Como estamos em um filme de duas horas, bem, serve para entediar.

Truque de Mestre é o filme que, por comparação, eleva ainda mais o status de O Grande Truque a clássico cinematográfico sobre mágicos. Seus tropeços não são irritantes, mas frustrantes. Não há nada a esperar do filme, e ele realmente não entrega nada. Apenas um filme de ação genérica que se veste como um grande golpe de ilusionismo. Abracadabra! Você perdeu duas horas de sua vida.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-06-21 imdb