Truque de Mestre

Jun 21, 2016

Imagens

Abracadabra! Surge um péssimo filme. Embalado naquele formato de reviravoltas, este filme não contém nenhuma, pois ele nunca nos faz crer em X para depois revelar Y. Todas suas “bombásticas” revelações são simplesmente isso: revelações. Geralmente algo novo que não tinha qualquer relação com o que foi mostrado até agora, e se tem alguma, é jogada no ar como uma carta qualquer.

A história gira em torno de quatro talentosos prestidigitadores do show business que recebem o chamado de uma organização milenar chamada O Olho, e é assim que se conhecem. Nenhum deles possui muita personalidade, apenas diferentes habilidades na arte de iludir (ah, e um romance não-resolvido que continua não-resolvido o filme inteiro). A câmera gira constantemente em torno deles e a plateia constantemente vai ao delírio, aplaudindo e gritando, até quando é mostrado o inocente truque do coelho na caixa espelhada.

Esse é um filme que tenta se erguer pelo elenco, que se dá ao luxo de ter Michael Caine e Morgan Freeman digladiando-se em torno do grupo de mágicos (não fica muito claro se o personagem de Freeman é contra o grupo de mágicos ou contra personagem de Caine, nem muito a motivação de Caine pelo grupo: esse é um embate que vale pelo próprio embate). Se dá ao luxo também de criar uma premissa de ilusionistas com a síndrome de Robin Hood sem maiores explicações. O responsável pelo plano executado pelos Quatro Cavaleiros (como são chamados) nunca se revela, mas nunca sentimos falta, o que acaba tornando a última revelação não apenas forçada, mas broxante.

Aqui vale uma menção desonrosa à direção/edição epilética de Louis Leterrier (acostumado a projetos encomendados como o remake de Fúria de Titãs e um filme de Jet Li, Cão de Briga). Mesmo com todas as falhas de roteiro escrito a seis mãos, algumas sequências idealizadas por Leterrier poderiam se beneficiar de uma ação quase constante. Porém, todas as perseguições, seja a pé ou de carro, sofrem de uma desorientação espacial problemática do começo ao fim, nunca sendo possível saber o que, como, onde. Na perseguição de carros isso fica particularmente irritante, pois todos os carros são iguais.

Mas voltemos ao roteiro, pois ele consegue piorar ainda mais o que já havia de medíocre no início da história. Você nunca irá encontrar, por exemplo, diálogos diretos, mas apenas floreios que revelam os delírios de auto-importância do projeto. Estamos falando de personagens que teoricamente teriam algo de importante a dizer, mas que permanecem falando de coisas vagas ou simplesmente pedestres. E se o grande criador de tensão é o “próximo grande truque”, ele simplesmente não nos interessa depois que o primeiro se revelou tão idiota.

E por falar em floreio, não bastasse a edição de som capenga, que deixa vozes e efeitos sem muito balanço entre eles (às vezes a música é desnecessária alta, outras os diálogos), a trilha sonora de Brian Tyler (Homem de Ferro 3) é uma mistura de Código da Vinci com Jogos Vorazes, mas sem remeter nem a um nem a outro. Repetitiva e monótona, serve perfeitamente a séries genéricas de televisão. Como estamos em um filme de duas horas, bem, serve para entediar.

Truque de Mestre é o filme que, por comparação, eleva ainda mais o status de O Grande Truque a clássico cinematográfico sobre mágicos. Seus tropeços não são irritantes, mas frustrantes. Não há nada a esperar do filme, e ele realmente não entrega nada. Apenas um filme de ação genérica que se veste como um grande golpe de ilusionismo. Abracadabra! Você perdeu duas horas de sua vida.

Wanderley Caloni, 2016-06-21. Truque de Mestre. Now You See Me (France, 2013). Dirigido por Louis Leterrier. Escrito por Ed Solomon, Boaz Yakin, Edward Ricourt, Boaz Yakin, Edward Ricourt. Com Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Isla Fisher, Dave Franco, Mélanie Laurent, Morgan Freeman, Michael Caine, Michael Kelly. IMDB.