Um Cadáver Para Sobreviver

2017/01/05

Swiss Army Man é o grito de desespero do tímido comum elevado à décima potência, o que segundo meus cálculos, pela regra do absurdo, gera um filme com um humor tão hilário quanto triste. Acorrentado em seus próprios medos, o tímido comum busca uma conexão com quem não o julga, ou quem não se parece superior a ele. Eu diria que qualquer um se sentiria menos inferior do lado de um defunto que continua soltando gases e nem sabe ainda o que é masturbação.

O novo filme escrito e dirigido dupla Dan Kwan e Daniel Scheinert começa em uma ilha deserta, onde um jovem chamado Hank (Paul Dano) cansado de esperar por ajuda e morrendo de tédio se prepara para se suicidar, quando avista o cadáver de um rapaz (Daniel Radcliffe). A viagem psicodélica apenas começa quando o defunto começa a soltar gases e é usado pelo náufrago como um jet-ski. Chegando ao continente, o maior desafio de Hank não é sobreviver enquanto encontra civilização, mas conviver consigo mesmo e sua versão mais inocente, até então guardada a sete chaves em seu coração e seu celular, mas que encontra voz e vida (irônico, não?) no corpo do recém-batizado Manny.

As brincadeiras em torno dos delírios de Hank só conseguem funcionar por causa da edição frenética de Matthew Hannam, que torna tudo lúdico através de câmeras rápidas e lentas, cortes rápidos em torno dos efeitos visuais que ilustram a criatividade ilimitada de Hank que apenas começou a se soltar de seu celular. Aos poucos, porém, ele dá vazão à grande paixão não correspondida: Sarah, a garota que ele sempre encontra no ônibus e com quem vive uma relação platônica.

A outra camada do filme é muito mais rica em símbolos, e consegue se tornar a parte mais interessante facilmente. É uma poesia enclausurada ver Hank e Manny interagindo e fazendo com que Hank se redescubra em uma espécie de auto-terapia movida a um humor tipicamente britânico e dificilmente reproduzível em outras culturas. Graças aos ótimos Paul Dano e Daniel Radcliffe isso se torna simples. Radcliffe, mesmo antes de falar, consegue através de suas “expressões” e “olhares” se sair até melhor que, por exemplo, Kristen Stewart na saga Crepúsculo. Quando “toma vida”, então, consegue se conter o suficiente para manter essa estranheza do boneco do titiriterista.

A criatividade dos cineastas consegue transformar tudo isso em uma história simpática com tons melodramáticos e um subtexto extremamente profundo. O uso de cores fortes na fotografia também ajuda a tornar tudo muito mais onírico e fantasioso do que a história de um náufrago sobrevivendo na floresta. Essa é a história do tímido saindo do casulo em um ambiente seguro: onde não há pessoas por perto. A proeza do filme conseguir transformar isso tanto em algo engraçado quanto dramático é um dos pontos fortes da trama.

Escapando um pouco da ótima dinâmica entre os dois no terceiro ato, e forçando a situação em demasiado quando um urso aparece para estragar a festa dos dois, Swiss Army Man é um filme que nunca para e que sempre parece ter algo a oferecer. Seu grito final de liberdade pode soar escapista e para os que gostam de finais felizes, mas ainda assim ele consegue manter a força da poesia de pé. Ou deitada. De todas as formas, o uso de gases no Cinema nunca foi tão bem aproveitado.

★★★★☆ Título original: Swiss Army Man. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: Dan Kwan. Daniel Scheinert. Roteiro: Dan Kwan. Daniel Scheinert. Elenco: Paul Dano (Hank). Daniel Radcliffe (Manny). Mary Elizabeth Winstead (Sarah). Antonia Ribero (Crissie). Timothy Eulich (Preston). Richard Gross (Hank's Dad). Marika Casteel (Reporter). Andy Hull (Cameraman). Aaron Marshall (Officer #1). Edição: Matthew Hannam. Fotografia: Larkin Seiple. Trilha Sonora: Andy Hull. Robert McDowell. Duração: 97. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Adventure. Tags: netflix

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