Um Conto Chinês

Jul 14, 2018

(27 de abril de 2011) Assistir um filme argentino, em espanhol, em Buenos Aires, pode ser uma experiência inspiradora, ainda mais se estivermos falando de Cinema com C maiúsculo.

Independente das minhas parcas capacidades de entender diálogos rápidos de castelhano, Cuento Chino consegue contar sua história com o uso de expressões, trilha sonora, e, principalmente, seu aspecto visual, que emprega um ritmo muito maior se fossem utilizados diálogos.

E, ironicamente, existe essa impossibilidade de comunicação entre os dois personagens principais do filme. Jun é um chinês que chega em Buenos Aires com o pé esquerdo. Enganado pelo taxista do aeroporto, cai nas “graças” de Roberto, uma pessoa tão reservada que deixa a entender que, mesmo que falassem o mesmo idioma, a comunicação já seria deficitária.

E agora, revisando o filme, sete anos depois, com legendas para todos os lados, a percepção muda um pouco.

Um Conto Chinês é ponto alto na carreira de Ricardo Darín, mesmo sendo uma dramédia de situação manjada e cheio de coincidências. A principal, de acordo com o letreiro inicial do filme, baseado em fatos reais. É difícil acreditar em vacas voadoras, mas… tudo se encaixa quando as pessoas começam a se comunicar.

Mas Darín é o coração do filme. Observe seu olhar irritado com seu cliente mais chato, e como ele monopoliza sua defesa pelo espectador. O trabalho em dupla entre o ator e o diretor/roteirista Sebastián Borensztein (que só fez mais um filme depois deste) rende bons frutos, já que este filme dispensa maiores diálogos. Está tudo na forma como as cenas são montadas. Isso é cinema no estado mais puro.

Alguns pontos irritam, como os atores coadjuvantes. Seu interesse amoroso, a hipnotizada Mari (Muriel Santa Ana) faz um papel de uma nota só (que se torna insistente demais; por que ela deseja tanto ficar com esse senhor rabugento?). E suas visitas costumeiras apenas preenchem o cenário construído sob medida para o personagem de Darín. Até seu chinês de estimação é um atrativo graças ao contraste realista que o ator emprega em tentar resolver seu problema da maneira mais rápida, mas bondosa, possível.

O que está em jogo nesse filme, mas que só fica claro próximo do final, é o poder da compaixão. De reconhecer o drama do próximo como se fosse de fato nosso. E por mais uma incrível coincidência do filme, se torna assim. Ironicamente é quando o filme perde sua liberdade e sua graça.

Mas até lá, tudo é conduzido com o coração e a intuição de um grande cineasta, que decupa suas cenas milimetricamente. O quarto bagunçado do hóspede é porta de entrada para a situação interna do anfitrião. E tem sido assim por 20 anos. Só começa a mudar quando o visitante do outro lado do mundo inicia a limpeza das velharias para fora de casa, e pinta com paciência uma parede em branco na vida de uma pessoa que tem uma rotina e seus rituais imutáveis por décadas. Mas como toda mudança, às vezes quebrar alguns vidros é necessário.

Em espanhol e chinês. Prefira assistir sem saber o que é falado em chinês.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-07-14. Um Conto Chinês. Un cuento chino (Argentina, 2011). Dirigido por Sebastián Borensztein. Escrito por Sebastián Borensztein. Com Ricardo Darín, Muriel Santa Ana, Ignacio Huang, Enric Cambray, Iván Romanelli, Joaquín Bouzas, Julia Castelló Agulló, Gustavo Comini, Vivian El Jaber.