Um Corpo Que Cai

Oct 3, 2012

Imagens

No topo da lista de melhores filmes de todos os tempos, Cidadão Kane, em 2012, deixa a respeitável posição para o suspense Um Corpo que Cai. É uma notícia que não muda em praticamente nada a importância da obra de Orson Welles para o Cinema, mas altera a percepção do espectador médio para com a Sétima Arte. Se antes as pessoas não enxergavam como que fosse possível que um filme preto e branco recheado de diálogos e múltiplos pontos de vista — uma bagunça, enfim — pudesse ser considerada a obra máxima audiovisual, com o filme de Hitchcock as coisas ficam um pouco mais fáceis.

Afinal de contas, a história gira em torno de elementos muito mais simplistas que a grandiosidade do roteiro de Wells. Aqui temos apenas um policial aposentado (James Stewart) por conta de um trauma com alturas que o fez perder seu parceiro do topo de um prédio e o impede de subir escadas longas. Recebe, porém, uma proposta de um velho amigo para que investigue o paradeiro de sua esposa, a bela Madeleine (Kim Novak). Ela, aparentemente, está tendo alucinações que a faz pensar ser outra pessoa e vagar pela cidade sem rumo definido. Sem muito o que fazer, boa parte do filme se dedica a esse passatempo em que o espectador exerce o mesmo fascínio que o espectador a descobrir detalhes da vida de Madeleine, até o já esperado clímax.

Porém, não conte com um enredo simplista demais. Hitchcock faz questão de tornar os detalhes simples os mais visíveis possíveis para o terceiro ato do longa, que é de arrebatar. A sua câmera sugestiva apresenta pistas falsas e reais que se misturam em um jogo de imersão completa do espectador à prova de algo palpável. O “Vertigo” do título original diz muito mais do que simplesmente o medo de altura. No entanto, há ângulos extremamente inusitados na história e no visual do filme que dizem muito mais sobre a psique do espectador. Os enquadramentos quase sempre incluem elementos próximos e distantes da câmera. As cores, representativas ao máximo, enfocam o estado de espírito de seus personagens e suas identificações com aquele mundo. Uma fotografia belíssima de Robert Burks continua belíssima e vívida em todas as cenas. E a trilha sonora de Bernard Herrmann é um encantamento à parte e com certeza participa ativamente de toda a história, sem nunca soar intrusivo demais (apenas quando precisa). Para quem está ouvindo pela primeira vez, vai notar certamente as mesmas notas em determinada cena de O Artista, que homenageia o filme.

Até os detalhes cafonas hoje em dia, apesar de datados, possuem um significado maior naquele universo. Ótimos filmes criam ótimas histórias utilizando um tema e gênero qualquer. Filmes inesquecíveis respiram seu tema e se aprofundam nele o tempo todo. É impossível resistir à beleza de uma obra de arte como Vertigo.

Wanderley Caloni, 2012-10-03. Um Corpo Que Cai. Vertigo (USA, 1958). Dirigido por Alfred Hitchcock. Escrito por Alec Coppel, Samuel A. Taylor, Pierre Boileau, Thomas Narcejac, Maxwell Anderson. Com James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Henry Jones, Raymond Bailey, Ellen Corby, Konstantin Shayne, Lee Patrick. IMDB.