Um Corpo Que Cai

No topo da lista de melhores filmes de todos os tempos, Cidadão Kane, em 2012, deixa a respeitável posição para o suspense Um Corpo que Cai. É uma notícia que não muda em praticamente nada a importância da obra de Orson Welles para o Cinema, mas altera a percepção do espectador médio para com a Sétima Arte. Se antes as pessoas não enxergavam como que fosse possível que um filme preto e branco recheado de diálogos e múltiplos pontos de vista — uma bagunça, enfim — pudesse ser considerada a obra máxima audiovisual, com o filme de Hitchcock as coisas ficam um pouco mais fáceis.

Afinal de contas, a história gira em torno de elementos muito mais simplistas que a grandiosidade do roteiro de Wells. Aqui temos apenas um policial aposentado (James Stewart) por conta de um trauma com alturas que o fez perder seu parceiro do topo de um prédio e o impede de subir escadas longas. Recebe, porém, uma proposta de um velho amigo para que investigue o paradeiro de sua esposa, a bela Madeleine (Kim Novak). Ela, aparentemente, está tendo alucinações que a faz pensar ser outra pessoa e vagar pela cidade sem rumo definido. Sem muito o que fazer, boa parte do filme se dedica a esse passatempo em que o espectador exerce o mesmo fascínio que o espectador a descobrir detalhes da vida de Madeleine, até o já esperado clímax.

Porém, não conte com um enredo simplista demais. Hitchcock faz questão de tornar os detalhes simples os mais visíveis possíveis para o terceiro ato do longa, que é de arrebatar. A sua câmera sugestiva apresenta pistas falsas e reais que se misturam em um jogo de imersão completa do espectador à prova de algo palpável. O “Vertigo” do título original diz muito mais do que simplesmente o medo de altura. No entanto, há ângulos extremamente inusitados na história e no visual do filme que dizem muito mais sobre a psique do espectador. Os enquadramentos quase sempre incluem elementos próximos e distantes da câmera. As cores, representativas ao máximo, enfocam o estado de espírito de seus personagens e suas identificações com aquele mundo. Uma fotografia belíssima de Robert Burks continua belíssima e vívida em todas as cenas. E a trilha sonora de Bernard Herrmann é um encantamento à parte e com certeza participa ativamente de toda a história, sem nunca soar intrusivo demais (apenas quando precisa). Para quem está ouvindo pela primeira vez, vai notar certamente as mesmas notas em determinada cena de O Artista, que homenageia o filme.

Até os detalhes cafonas hoje em dia, apesar de datados, possuem um significado maior naquele universo. Ótimos filmes criam ótimas histórias utilizando um tema e gênero qualquer. Filmes inesquecíveis respiram seu tema e se aprofundam nele o tempo todo. É impossível resistir à beleza de uma obra de arte como Vertigo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-10-03 imdb