Um Crime de Mestre

Um Crime de Mestre utiliza seus dois atores principais da melhor maneira. Anthony Hopkins, relembrado pelo título original (Fracture) que remete à mesma brincadeira metafórica do jovem clássico Silêncio dos Inocentes (Silence of the “Lambs”), estabelece um personagem frio e calculista que parece estar sempre se divertindo com seus jogos mentais e é alheio à realidade à sua volta, e ainda que cometa um crime passional logo no início o faz de forma hedionda e determinística. Já Ryan Gosling, que hoje possui em seu currículo o controverso motorista de Drive, é um advogado que se relaciona com as pessoas, mas assim como Hopkins, olha o mundo sempre do ponto de vista como ele pode servi-lo.

Quando ambos os egos se encontram em um embate mais intelectual do que emotivo, as regra do sistema judiciário americano são vitais para a compreensão do que está em jogo: o único suspeito de assassinar sua própria esposa pode sair impune caso as peças não estejam devidamente encaixadas. A impressão que é passada a quase todo momento é que o sistema legal daquele país é tão frágil — ou seus “jogadores” tão ambiciosos — que gerenciar a justiça se torna função de empresas frias e calculistas como o próprio assassino. Nesse sentido, o que o diferencia dos seus advogados?

Aliá, emoção é um tema que nunca é deixado fluir. Utilizando tons noturnos quase sempre azuis e tristes, a película como um todo é uma reflexão nada otimista sobre como a justiça pode se relativizar e consequentemente se desumanizar. Mesmo quando Gosling se apresenta como o adversário passional do jogo que se desenrola, sabemos que sua principal motivação é simplesmente sua auto-afirmação como o promotor que teve 97% de suas causas ganhas. O diretor Gregory Hoblit (As Duas Faces de Um Crime) e o roteirista Daniel Pyne (Sob o Domínio do Mal) não permitem em nenhum momento que a história descambe para o melodrama, o que pode repelir os que esperam um thriller ou algo com mais ação. No entanto, o dia-a-dia da lei não poderia estar melhor retratado que na desesperança de uma vítima que sobrevive apenas formalmente com a ajuda de máquinas.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-04-21 imdb