Um Dia Perfeito

Verdade seja dia: Benicio Del Toro é um grande ator. Em Um Dia Perfeito, um trabalho que é um misto de esperança, alto astral e uma crítica ácida sobre guerras sem sentido em fins de mundo, ele faz Mambrú, o chefe de uma ONG de segurança que ajuda comunidades em torno das zonas de conflito. Aparentemente perdido em um fim de mundo, mas se sentido muito mais em casa do que ao lado de sua namorada, Mambrú é uma figura recorrente na cinematografia atual, por conta de cada vez mais guerras sem sentido (se é que alguma vez houve uma guerra com algum sentido senão o de obter mais dinheiro e poder).

Del Toro interpreta com trejeitos sutis em torno de uma realidade amalucada através de uma trilha sonora completamente inapropriada, com um misto entre músicas estrangeiras da região e rock pesado (incluindo Sweet Dreams (Are Made Of This), em uma espécie de auto-sabotagem de uma cena impactante). A fotografia exagerada entre o drama e a comédia pontua como esse filme deseja ardentemente se tornar dois excelentes, mas acaba pendendo para dois filmes acima da média com um gostinho de poderia ser mais.

Ainda assim, há um roteiro muito bem desenhado pelo diretor Fernando León de Aranoa, adaptado do romance de Paula Farias, a ex-presidente do Médico Sem Fronteiras (a ONG do filme). Mesmo soando de fato em alguns momentos como uma propaganda, o filme tem muito mais a dizer sobre a guerra e a bagunça que ela gera entre pessoas pacíficas, do que querer que vejamos como são heróis as pessoa envolvidas. Na verdade, acaba soando na maioria das vezes o contrário: um programa que reúne pessoas deslocadas, que acabam se acostumam com a vida isolada e que perderam a noção do que é caminho de casa.

Emplacando toda uma movimentação em torno da tentativa de retirarem um corpo gigantesco de um homem morto de um poço a fim de salvar a água para ser bebida pelos habitantes da região, é um dos poucos filmes que admite que a ONU é uma pedra no sapato de qualquer um – faltando apenas confessar que ela representa muito mais o patrocínio de seus estados do que qualquer tipo de ajuda incondicional que a sua bandeira azul queira dizer. Além disso, os códigos de conduta em tempo de guerra são tão absurdos que viram tema de pelo menos três momentos no longa. Sem contar, é claro, as duras consequências “não-previstas” quando uma guerra tem início de uma região, como fazer vizinhos que antes viviam pacificamente explodirem a casa um do outro.

A questão mais fascinante em Um Dia Perfeito, no entanto, é perceber como seus personagens viraram muito mais reflexos dessa loucura, mas sem nunca conseguirem se adequar ao povo local. E, por final, vira uma crítica sensacional aos que pensam que sabem exatamente como ajudar cada habitante deste planeta. Pois bem: a ignorância é uma bênção para alguns, mas um martírio para outros.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-07-05. Um Dia Perfeito. A Perfect Day (Spain, 2015). Dirigido por Fernando León de Aranoa. Escrito por Fernando León de Aranoa, Diego Farias, Paula Farias. Com Benicio Del Toro, Tim Robbins, Olga Kurylenko, Mélanie Thierry, Fedja Stukan, Eldar Residovic, Sergi López, Nenad Vukelic, Morten Suurballe. imdb