Um Divã para Dois

Meryl Streep (Kay), e é preciso que comece esse texto com ela, está divina. Pra variar, seu tom de voz fino, distante e frágil remete justamente àquela mulher que, depois de 30 anos de casada, percebe que sua posição submissa e acomodada começa a perturbá-la pelo som repetitivo e ensurdecedor da rotina. Seu marido, Arnold (Tommy Lee Jones sendo Tommy Lee Jones), igualmente acomodado em uma cadência ininterrupta de ovos, bacon e escritório, mal consegue entender por que sua mulher pretende mudar aquele casamento estável indo para uma sessão de terapia de casais em uma cidadezinha feita sob encomenda. Pior: não entende por que gastar 4 mil dólares em algo tão fútil se poderia aplicar melhor esse dinheiro comprando um telhado novo?

Construído de maneira impecável e didática pelo diretor David Frankel, as primeiras cenas que demonstram como, apesar de casados, o convívio alargado e rotineiro criou uma barreira intransponível entre os dois, tal como o longo corredor que separa seus quartos, os ângulos opostos que cada um olha pela manhã (Arnold, para o jornal e para a janela, Kay, para o fogão e para Arnold) e o personagem invisível que se senta entre os dois no sofá de Dr. Feld (Steve Carell, mais simbólico que necessário).

A coragem do diretor, aliás, em arriscar um arco dramático não linear e que impulsione os personagens da maneira mais realista do que um casal formado por Lee Jones e Streep poderiam ser fadado ao fracasso se não houvesse essa cumplicidade com o espectador. Com a confiança depositada em quem assiste e provavelmente já viveu situação semelhante (da rotina) é possível apostar em sequências relativamente lentas — se compararmos com as regras das comédias românticas — e deixar o espectador constrangido. Constrangido, aliás, é a palavra exata para definir o que se sente ao ouvir as diversas músicas bregas escolhidas a dedo para ilustrar os momentos cafonas de uma tentativa desesperada de um casal de meia-idade em tentar algo novo. A aposta do diretor atinge seu ápice ao nos colocar em uma sala de cinema que aparentemente quebra a quarta parede que nos separa do filme.

Como consequência metafórica, saímos do filme com uma sensação de terapia, de livro de auto-ajuda. Uma bobagem? Sem dúvida. Porém, feita a partir da reciclagem do óbvio que encanta mais do que se víssemos mais do mesmo. Nesse sentido, a aposta de David Frankel, desajeitada em poucos momentos, sai da rotina ainda acima da média.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-08-24. Um Divã para Dois. Hope Springs (USA, 2012). Dirigido por David Frankel. Escrito por Vanessa Taylor. Com Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Jean Smart, Ben Rappaport, Marin Ireland, Patch Darragh, Brett Rice, Becky Ann Baker. imdb