Um Homem Insignificante

Nov 2, 2016

Imagens

Fui convidado a assistir este documentário por um de seus diretores, Vinay Shukla, na 40a. Mostra de São Paulo. Fiquei imensamente lisonjeado pelo Cine Tênis Verde ser reconhecido como uma fonte de conhecimento a respeito da sétima arte. Temos feito o possível para incluir nesse festival o máximo de textos. Como já havia agenda (e recursos) para tal, selecionei-o na sua última sessão, dia 1. Curiosamente quase não consegui assisti-lo graças à bagunça que foi a cabine de Snowden, de Oliver Stone, na manhã do mesmo dia. Felizmente consegui chegar a tempo de ver o que os diretores estreantes haviam bolado a respeito dos últimos acontecimentos políticos em um país muito próximo culturalmente ao Brasil. E fiquei mais feliz ainda ao ter gostado, e muito, do filme, o que evita que eu seja obrigado, por integridade, a tecer críticas pesadas aos idealizadores do longa. Não foi dessa vez ;)

E eis um romance no formato de documentário político. No meio de tanta hipocrisia e sujeira nesse meio, as eleições, que seriam o único momento democrático minimamente relevante para o homem comum, hoje é tomado por partidos que representam os interesses dos que os financiam, transformando um ideal nobre em uma máquina de corrupção.

Isso é tão verdade quanto menos acostumada com o regime democrático está a população, o que coloca países onde o poder do voto foi instituído de cima pra baixo, como Brasil e Índia, em vitrines de poder. Dessa forma, é improvável que testemunhemos na vida real acontecimentos como os das últimas eleições em Nova Delhi, na Índia, cujo líder político Arvind Kejriwal, a despeito de ganhar o apoio das pessoas através de discursos populistas, criou um Partido do Homem Comum exatamente como a democracia é sonhada: a partir da ajuda individual e moralmente fundado dos anseios da população.

A discussão que se segue no documentário começa desde os protestos de Arvind e seu grupo, com a popular greve de fome (instituída pelo pacifista Gandhi), até a triste constatação de que nas democracias atuais não existe participação popular no dia-a-dia, mas apenas elegendo representantes a cada tantos anos é possível tentar mudar usando o próprio jogo vigente.

Dessa forma Arvind funda o seu partido não da maneira convencional, mas como uma ONG, ou seja, totalmente independente dos desejos do Congresso e até do partido rival. Dependendo de crowdfunding e marketing boca-a-boca, as esperanças do povo parecem residir nele mesmo, ainda que através do grupo bem articulado – mas não sem divergências – formato por Kejriwal.

Filmado como uma saga que leva em conta principalmente o lado do herói, An Insignificant Man se torna um romance no momento que escolhe contar sua história como uma experiência de esperança e conquista, independente dos resultados finais das eleições. Os acontecimentos no decorrer de meses são condensados de maneira competente pela dupla de diretores, que têm à sua disposição dois editores (Manan Bhatt e Abhinav Tyagi) particularmente interessados em manter um ritmo coeso e incessante dos eventos do começo ao fim. Dessa forma, acompanhamos, por exemplo, a investigação de um vídeo-denúncia de corrupção de uma representante do partido de Arvind em questão de segundos, em algo que na vida real está disperso em dias, semanas, e que por causa disso perde-se facilmente a origem dos fatos. Com isso é possível observar como nem sempre as pessoas conseguem ficar bem informadas dos fatos, pois a memória do ser humano, graças aos efeitos das mídias digitais, tem se tornado cada vez mais opcional.

Aqui é possível acompanhar a realidade em ritmo acelerado, e ainda que esta esteja tomando um partido, ela é relevante e apaixonante o suficiente para nos fazer enxergar parte dessa realidade com os olhos renovados, jovens, que resgatam um idealismo refrescante, daqueles que sonhamos em um dia ter: sair de porta em porta, por todos os bairros da comunidade, procurando por apoio individual e doações espontâneas de quem apoia suas ideias.

Claro que o filme não é à prova de críticas, muito menos Arvind, que na reta final das eleições atravessa a realidade e promete ações populistas cujos efeitos estão convenientemente escondidos do espectador médio, que possivelmente não percebe, assim como quem entende minimamente de economia, que não existe água grátis assim como não existe almoço grátis.

Dessa forma, o resultado do filme, ainda que eficiente do ponto de vista romântico, peca por se tratar de um documentário que deveria tentar abordar ambos os lados da moeda. Mas, sejamos honestos: não existe trabalho imparcial. O que se pode criticar, no máximo, é a manipulação barata. E isso não existe em An Insignificant Man, que encontra os desejos do homem comum no meio da batalha política da capital indiana e pretende narrar uma história usando essa emoção como pilar. Real ou não, o resultado é inspirador o suficiente.

Wanderley Caloni, 2016-11-02. Um Homem Insignificante. An Insignificant Man (India, 2016). Dirigido por Khushboo Ranka, Vinay Shukla. Escrito por Khushboo Ranka, Vinay Shukla. Com Arvind Kejriwal (Arvind Kejriwal), Santosh Koli (Santosh Koli), Manish Sisodia (Manish Sisodia), Yogendra Yadav (Yogendra Yadav). IMDB.