Um Limite Entre Nós
Wanderley Caloni, 2017-02-07

Fences é um filme baseado em uma peça. Mas isso dá pra saber logo nos primeiro minutos do filme dirigido por Denzel Washington e adaptado pelo próprio dramaturgo August Wilson. A história se passa praticamente na casa e nos arredores da casa dos Maxson, uma família cujo patriarca, Troy (Washington), é uma figura encontrada facilmente entre as camadas mais pobres da sociedade, muitas vezes criado por pais ainda mais rígidos que ele. É lógico que muitos de nós tiveram pais ou conhecidos com pais assim. E nem por isso há algo de sintomático por trás de tudo isso. A menos que seja inserido um dedinho da esquerda progressista a investigar que tudo aquilo no fundo é resquício da violência praticada contra os negros. Resquício ou não, este é um drama de primeira qualidade basicamente por causa de Viola Davis e Denzel Washington, que carregam o filme como se fosse extremamente fácil interpretar seus personagens.

Nada mais longe da verdade. Note como Viola Davis tricota casualmente em seu quinta quando vem receber o marido, logo na primeira cena. Observe como seu jeito gracioso de dona de casa tradicional esconde um certo respeito e medo de seu marido, com quem brinca de maneira pseudo-inocente, mas que fica claro que tudo aquilo é um jogo de cena que se fazia por muitas e muitas décadas. Porém, isso só se percebe aos poucos, em cada diálogo, em cada micro-expressão dos personagens. E há diálogos suficiente para percebermos (é uma peça de teatro, lembra?), assim como há interpretações afiadas e quase naturalistas como de Davis.

Já Denzel Washington impressiona mais por sua atuação do que direção, que é típica de diretores ainda engatinhando na arte cinematográfica. Washington diretor passeia sua câmera, muda enquadramentos, e quase acerta alguns ângulos prosaicos, como deixar a mulher fora de foco na cozinha enquanto os homens conversam na sala. Agora, particularmente fascinante é tentar enxergar o ator por trás de uma emulação não apenas perfeita de um negro sulista, com suas gírias, sua forma de usar as pausas, o sotaque e o movimento da cabeça. Porém, mais do que isso, seu Troy é cheio de alma, de caráter. Ele é gordo como se deve, um marido esteticamente nojento ainda que reverenciado por sua esposa. E ainda assim, confiante de si. Troy parece caminhar de cabeça erguida para não correr o risco de nunca mais conseguir levantá-la. Ele usa os ensinamentos do pai, e parece ser a pedra no sapato de toda família.

Fences é indicado ao Oscar para preencher uma cota que em 2017 está sobrecarregada, com três filmes protagonizados por negros em ficção e mais dois documentários (e uma série) lidando com o racismo. Como filme ele se encaixa naquela categoria das atuações, apesar de como filme ser mais falado do que visualmente interessante. O seu coração, no entanto, é puro e honesto. Ele não quer polemizar além do necessário. Seria quase naturalista se esses personagens da vida real não tivessem tantas frases de efeito, frases poéticas, que traem seu realismo denunciando a dramaturgia por trás da arte que imita a vida.

★★★★☆ Fences. USA. 2016. Direção: Denzel Washington. Roteiro: August Wilson. Elenco: Denzel Washington (Troy Maxson), Viola Davis (Rose Maxson), Stephen Henderson (Jim Bono), Jovan Adepo (Cory), Russell Hornsby (Lyons), Mykelti Williamson (Gabriel), Saniyya Sidney (Raynell), Christopher Mele (Deputy Commissioner), Lesley Boone (Evangelist Preacher). Edição: Hughes Winborne. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Trilha Sonora: Marcelo Zarvos. Duração: 139. Aspecto: 2.35 : 1. Drama. #torrent #oscar2017