Um Limite Entre Nós

Fences é um filme baseado em uma peça. Mas isso dá pra saber logo nos primeiro minutos do filme dirigido por Denzel Washington e adaptado pelo próprio dramaturgo August Wilson. A história se passa praticamente na casa e nos arredores da casa dos Maxson, uma família cujo patriarca, Troy (Washington), é uma figura encontrada facilmente entre as camadas mais pobres da sociedade, muitas vezes criado por pais ainda mais rígidos que ele. É lógico que muitos de nós tiveram pais ou conhecidos com pais assim. E nem por isso há algo de sintomático por trás de tudo isso. A menos que seja inserido um dedinho da esquerda progressista a investigar que tudo aquilo no fundo é resquício da violência praticada contra os negros. Resquício ou não, este é um drama de primeira qualidade basicamente por causa de Viola Davis e Denzel Washington, que carregam o filme como se fosse extremamente fácil interpretar seus personagens.

Nada mais longe da verdade. Note como Viola Davis tricota casualmente em seu quinta quando vem receber o marido, logo na primeira cena. Observe como seu jeito gracioso de dona de casa tradicional esconde um certo respeito e medo de seu marido, com quem brinca de maneira pseudo-inocente, mas que fica claro que tudo aquilo é um jogo de cena que se fazia por muitas e muitas décadas. Porém, isso só se percebe aos poucos, em cada diálogo, em cada micro-expressão dos personagens. E há diálogos suficiente para percebermos (é uma peça de teatro, lembra?), assim como há interpretações afiadas e quase naturalistas como de Davis.

Já Denzel Washington impressiona mais por sua atuação do que direção, que é típica de diretores ainda engatinhando na arte cinematográfica. Washington diretor passeia sua câmera, muda enquadramentos, e quase acerta alguns ângulos prosaicos, como deixar a mulher fora de foco na cozinha enquanto os homens conversam na sala. Agora, particularmente fascinante é tentar enxergar o ator por trás de uma emulação não apenas perfeita de um negro sulista, com suas gírias, sua forma de usar as pausas, o sotaque e o movimento da cabeça. Porém, mais do que isso, seu Troy é cheio de alma, de caráter. Ele é gordo como se deve, um marido esteticamente nojento ainda que reverenciado por sua esposa. E ainda assim, confiante de si. Troy parece caminhar de cabeça erguida para não correr o risco de nunca mais conseguir levantá-la. Ele usa os ensinamentos do pai, e parece ser a pedra no sapato de toda família.

Fences é indicado ao Oscar para preencher uma cota que em 2017 está sobrecarregada, com três filmes protagonizados por negros em ficção e mais dois documentários (e uma série) lidando com o racismo. Como filme ele se encaixa naquela categoria das atuações, apesar de como filme ser mais falado do que visualmente interessante. O seu coração, no entanto, é puro e honesto. Ele não quer polemizar além do necessário. Seria quase naturalista se esses personagens da vida real não tivessem tantas frases de efeito, frases poéticas, que traem seu realismo denunciando a dramaturgia por trás da arte que imita a vida.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-02-07 imdb