Um Lugar Chamado Notting Hill

Wanderley Caloni, August 27, 2010

Está é uma história estilo conto de fadas, em que uma famosa atriz, inalcançável pela maioria dos mortais, acaba visitando um pequeno bairro de Londres (o Notting Hill do título) e conhece o dono de uma loja de livros de viagem (e é curioso que provavelmente ela deve ter viajado para muitos dos lugares descritos nos livros de suas estantes) e vivem um inusitado romance.

Como eu disse, é uma história não-verossímil, e tanto a direção de arte quanto a fotografia sabem disso. Escolhendo um bairro bucólico da fria Londres, os ambientes parecem cinematográficos por natureza. Apostando em uma luminosidade mais clara que de costume o filme remete a um sonho, onde tudo é mais claro, mas ao mesmo tempo mais confuso (note a explosão de cores na feira e o quão agitadas são as ruas).

Os atores são conhecidíssimos, e isso por um lado favorece Julia Roberts e por outro nem tanto Hugh Grant, que é a contraparte que teoricamente é a cara anônima no meio da multidão. Talvez por isso a atuação da primeira soe tão convincente (ela tem que interpretar ela mesma) e a dele, que poderia ser um fracasso, mantém-se bem colocada, até porque estamos falando de uma narrativa mais ilusória do que de costume nas comédias românticas, e isso é demonstrado tanto pelos elementos exagerados nos personagens secundários (como seu amigo estúpido) quanto alguns diálogos que exercem a função de estabelecer aquele acontecimento como “surreal, mas agradável”.

Se por um lado a história é incrível demais para ser verdade, ela é levada como algo factível, com todas as nuances que uma história assim teria se fosse real. Dessa forma podemos acompanhar o jantar de aniversário da irmã caçula de Grant de forma bem confortável, pois enxergamos perfeitamente a situação daqueles mortais tentando soar autênticos no meio da musa do cinema.

Alguns detalhes da vida de atriz são bem mostradas, como o momento em que ele, no meio de uma coletiva da imprensa após a exibição da prévia de seu filme, seu afeto tem que fingir ser um repórter de uma revista enquanto seu empresário circula pela mesma sala onde conversam.

Com algumas reviravoltas a mais, a narrativa estabelece de forma competente o aumento na intimidade de ambos conforme a história avança, e a própria evolução do tempo é bem estruturada, muitas vezes demonstrada visualmente de forma tão econômica quanto na sequência da passagem de um ano como uma caminhada na rua da feira que “tem todos os dias” (e note que a moça grávida do início dessa cena aparece no final carregando seu filho, ou como o casal que está junto briga no meio da caminhada).

E se é crível a antipatia e praticidade demonstrada pela protagonista quando descobre que seu esconderijo foi profanado por uma penca de fotógrafos sedentos por escândalo, alterando totalmente seu comportamento com seu afeto, é tocante a cena em que ela tenta reatar o relacionamento se colocando não mais como uma atriz que deve defender sua imagem perante as câmeras, mas uma simples garota que deseja que alguém a ame.

Imagens e créditos no IMDB.
Um Lugar Chamado Notting Hill ● Um Lugar Chamado Notting Hill. Notting Hill (UK, 1999). Dirigido por Roger Michell. Escrito por Richard Curtis. Com Julia Roberts, Hugh Grant, Richard McCabe, Rhys Ifans, James Dreyfus, Dylan Moran, Roger Frost, Henry Goodman, Julian Rhind-Tutt. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-08-27. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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