Um Segredo em Paris

Nov 17, 2018

A diretora Élise Girard parece se pronunciar apenas quando é necessário. Nesse seu segundo longa de ficção ela nos apresenta Mavie e Georges como um casal impossível pela diferença de idades, que conta duas gerações, e ao mesmo tempo tece a criação de um romance nas entrelinhas escritas pela jovem Mavie e nos momentos capturados pela sua memória. Para Mavie o que importa são as sensações.

Isso é o mais interessante no filme minimalista que se segue, pois o velho Georges, interpretado pelo velho de guerra no cinema Jean Sorel (“A Bela da Tarde”), que cuida de uma livraria que não recebe clientes, possui um passado misterioso que é justamente o que faz com que Mavie se apaixone perdidamente por ele.

Os longos passeios de carro e os longos momentos de silêncio entre os dois é a versão francesa de “Encontros e Desencontros” que Girard nos entrega e nos remete, criando em cima desse leve tecido a contemporaneidade dos problemas modernos, como o mal estar súbido de gaivotas que começam a cair nas ruas de Paris, ou as manifestações de jovens contra o uso da energia nuclear. É do paralelo entre o velho Georges e suas velhas ideias e o jovem Roman e seu conveniente engajamento que “Um Segredo em Paris” mais se perde na mesmice.

Por isso sua primeira metade é a mais forte, pois é a que estabelece a conexão improvável entre essas duas gerações, que se sacrificam e mantém a relação assexuada, mas cheia de fascínio um pelo outro, mesmo vindo de planetas distintos. Uma brevíssima janela de ficção que se monta em quadros estáticos e simples enquadramentos. Uma pequena peça cinematográfica para as tardes quentes da primavera.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-11-17. Drôles d'oiseaux. França, 2017. Escrito por Élise Girard com ajuda de Anne-Louise Trividic. Dirigido por Girard. Com Lolita Chammah, Jean Sorel, Virginie Ledoyen. Drama, mistério, direção curiosa, bem francês.