Um Senhor Estagiário

Nancy Meyers (Presente de Grego, O Amor Não Tira Férias) é uma fofa para criar personagens carismáticos e em geral escolher os atores do momento para o papel. Robert de Niro e Anne Hathaway são escolhas óbvias. Hathaway ganhou o Oscar ano passado por chorar e cantar em Os Miseráveis (o que não quer dizer que automaticamente ela vire uma atriz de destaque) e de Niro voltou à ativa em O Lado Bom da Vida três anos atrás. Como a fundadora de uma startup de sucesso e um estagiário da terceira idade em um programa novo da empresa ambos saem perfeitos. Meyers sabe disso, crédito para ela.

Porém, além de produzir, aqui ela dirige e escreve o roteiro, e convenhamos, seu estilo de capturar os temas do momento – feminismo, tecnologia, casamentos desmoronando – e transformar em um filme longo demais sobre relacionamentos de pessoas obcecadas pelo trabalho como conjunto não funciona tão bem. No roteiro há cenas (o “sequestro” do computador da mãe para apagar um email) e manipulações (soar o alarme do hotel apenas para…) em excesso, tornando a experiência inchada e episódica. Na direção todo o momento a câmera sobe e desce, querendo mostrar as lindas paisagens de Nova Iorque a esmo, parecendo fingir que o filme está acabando, quando na verdade estamos no final de mais um episódio nessa novela embalada em filme.

O que é uma pena, pois a trama central – alguém muito mais velho participar do processo de consolidação de uma empresa que acabou de nascer – é tocante e com potencial. Potencial esse aproveitado pelos atores principais, mas não pelos diálogos que eles proferem. É irritante como quase nada que sai da boca deles é factível o suficiente para enxergá-los como seres de carne e osso, parecendo sempre mais um clichê de auto-ajuda que tenta filosofar a respeito do momento (como se as pessoas realmente falassem assim na vida real).

Um Senhor Estagiário, portanto, se mostra uma experiência mista. É bom ver de Niro e Hathaway contracenarem com personagens adoráveis em situações que os envolvem tão profundamente. É frustrante vê-los desperdiçados em um roteiro e direção que pretende enxergá-los como objetos manipulativos até em um brand integration quase inteligente do Uber, que acerta o filme onde colocá-lo, mas ainda soa descaradamente uma propaganda (não tão embaraçosa quanto 007 tomando Heineken, mas ainda uma propaganda).

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-12-27 imdb