Uma Cilada para Roger Rabbit

Jan 19, 2016

Imagens

Um filme de 1988 que conseguiu unir desenhos com live action de uma maneira que até hoje não parece datado. Sua grande sacada é já fazer um filme de época, a Hollywood da década de 40, e embutir todos os desenhos icônicos em um longa-metragem que é usado apenas para realizar essa façanha, mas que em si possui um roteiro com uma trama inteligente por utilizar a própria fusão do mundo dos desenhos e dos humanos.

Seu herói é Roger Rabbit (Charles Fleischer), um coelho que foi criado para o filme e que atua em um desenho animado em Hollywood. Sim, os desenhos atuam em… desenhos. Quando seu produtor contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins) para descobrir se a voluptuosa mulher de Roger, Jessica Rabbit (cuja modelo de corpo foi Betsy Brantley), o está traindo, uma rede de intrigas se forma quando Marvin Acme (Stubby Kaye), dono dos projetos que envolvem os desenhos (percebeu a referência?), é assassinado. Perseguido como principal suspeito pelo Juiz Final (Christopher Lloyd) e sua gangue de fuinhas, Roger agora precisa provar sua inocência e reaver o suposto testamento que Acme teria escrito, deixando a terra dos desenhos para os próprios desenhos.

Pela premissa do filme já é possível imaginar que o diretor Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro) abraçou o projeto de unir desenhos e pessoas de todas as formas possíveis, nunca se furtando em perceber o absurdo daquela realidade. Com isso, torna tudo muito mais crível, em um mundo onde todos consideram a existência de desenhos na vida real um fato consumado. Ao ver as sequências em que desenhos e humanos interagem chega a ser ainda impressionante, e isso 27 anos depois. Você acredita de fato que os desenhos fazem parte daquela realidade fantástica. Boa parte dessa crença também provêm dos próprios personagens humanos, que possuem um ar de desenho em sua forma de agir, o que pode ser explicado pelo próprio convívio com tantos desenhos.

A direção ágil de Zemeckis não nos dá tempo de ficar pensando nos detalhes de logística de como seus efeitos são possíveis. Em vez disso, focando em sua trama e a levando em ritmo acelerado em um clima de eterna urgência, conhecemos o mundo dos desenhos, como eles funcionam, se podem morrer, se podem matar, e, o mais importante, qual é a sua moral. A resposta é simples: fazer rir.

Conseguindo unir figuras tão absurdas e ainda colocar um drama de filme “noir”, cujo ótimo Bob Hoskins é protagonista, além de apresentar a estonteante Jéssica Rabbit, um feito e tanto para a época, Uma Cilada Para Roger Rabbit pode ainda ser acusado de ingênuo e infantil, o que é ótimo que o seja. Quer dizer que o projeto de unir adultos e desenhos funcionou em seu máximo.

Wanderley Caloni, 2016-01-19. Uma Cilada para Roger Rabbit. Who Framed Roger Rabbit (USA, 1988). Dirigido por Robert Zemeckis. Escrito por Gary K. Wolf, Jeffrey Price, Peter S. Seaman. Com Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Joanna Cassidy, Charles Fleischer, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Richard LeParmentier, Lou Hirsch, Betsy Brantley. IMDB.