Uma História de Amor e Fúria

Um delírio técnico e estilístico que permite que vejamos nossa história como povo através da lente da dura e cruel realidade dos oprimidos, Uma História de Amor e Fúria estabelece desde o início seu tom fantasioso ao revelar a idade do narrador e protagonista envolvido em uma jornada de cerca de 600 anos através do passado e futuro do Brasil.

Tanto o “amor” quanto a “fúria” do título podem ser sentidos desde a primeira das quatro histórias em que são desenvolvidos os dois personagens principais: um guerreiro imortal da tribo Tupinambá (Selton Mello) e sua amada e sempre belamente reencarnada Janaína (Camila Pitanga). O Rio de Janeiro, palco da história, já nasce de uma luta sanguinária entre franceses e portugueses pelo poder da região. A história apenas se mostra, mas se torna óbvio que aquela sociedade nascida da opressão utiliza a mesma estrutura em qualquer momento de sua evolução tecnológica.

É uma história impactante, intensa e dona de uma triste verdade. Lembra Um Cabra Marcado Para Morrer pelo seu tema, que centraliza na opressão do governo (e da sociedade dominante) sobre um povo desde o começo miserável, escravo e injustiçado. Assim como “Um Cabra…”, delineia sua história por várias gerações. Diferente deste, cria um futuro distópico que nos alerta para o que está ocorrendo nesse exato momento com a nossa sociedade (o que faz eco com outra produção recente, Som ao Redor). Nesse mar de ideias, utiliza maravilhosamente bem a ficção científica ao mostrar um futuro com um povo alienado e sem paixão por nada. A sequência em que uma bola de futebol cai de um arranha-céu gigante para flutuar em uma espécie de bueiro ao céu aberto do lado de um grupo de crianças consegue resumir visualmente todo o sentimento estancado por décadas do nosso processo implacável de injustiça social.

Sem conter pontos específicos de nenhuma das quatro histórias, o filme se revela e se transforma na história do casal apaixonado em uma bela metáfora em busca por essa paixão perdida no tempo, assim como a esperança por dias melhores. Assim como A Viagem (Wachowski/ Tom Tykwer, 2012), a mensagem do filme não poderia ser mais clara e necessária. Por isso o seu clima de urgência.

O que nos leva às suas virtudes técnicas. Cientes da intensidade que precisam passar em uma animação que começa como um estilo quase parado e contemplativo, a edição e mixagem de som mais do que compensam. Compostos pela mesma equipe de Tropa de Elite, os sons todos juntos definem cada atmosfera através das falas e sons que se ouvem ao fundo. Enfatizam o tom emergencial ou apático pelo uso pincelado de sua trilha sonora.

E não é apenas o som que impressiona, apesar deste ser ponto forte e acertadamente levado em conta. O uso inteligente da fotografia consegue claramente estipular uma evolução, iniciando em cores quentes e naturais da selva ainda virgem, passando pelo cinzento e inebriante fumaça do progresso dos anos 70, e atingindo seu ápice em um azul que incomoda justamente pelo seu tom de sofisticação em torno de uma sociedade onde ironicamente falta água, o elemento mais básico da subsistência humana. E esse recurso sagrado é tratado como negócio e defendido pelas classes superiores assim como hoje se defende os maiores privilégios para uma casta previamente selecionada. (Note que até viagens a Marte já são possíveis, e onde a presença de água já foi comprovada, mas são usadas para o carregamento de minério.)

Dessa forma, se no começo a animação soa estranhamente estilizada, o costume dos nossos olhos e a sua sofisticação crescente a cada história faz o artifício se tornar cada vez mais necessário. Um trabalho de produção digno de nota por harmonizar esforços de tão escassos desenhistas em uma história envolvente pela própria natureza do ser humano de torcer pelo lado mais fraco.

“Meus heróis nunca tiveram uma estátua, mas morreram lutando contra os que tinham”, lamenta o nosso protagonista. Não podemos culpá-lo de lutar sempre pelo lado mais fraco, se está claro que ao menos parece o lado certo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-04-11. Uma História de Amor e Fúria. Uma História de Amor e Fúria (Brazil, 2013). Dirigido por Luiz Bolognesi. Escrito por Luiz Bolognesi. Com Selton Mello, Camila Pitanga, Rodrigo Santoro. imdb