Uma Noite de 12 Anos

Oct 2, 2018

Imagens

Este é um filme tão necessário que parece que chega atrasado. Mas se formos pensar que nunca é bom fazer um filme sobre um presidente enquanto ele é presidente então chegaremos à conclusão que o timing, afinal de contas, não poderia ter sido melhor. José Mujica, ex-presidente do Uruguai, entrou e saiu do comando do país entre 2010 e 2015; o mesmo país onde foi preso e torturado, entre os anos 70 e 80. Ainda vivo, com 83 anos, sua idade avançada parece ser mais um indício de como ele e outros dois prisioneiros políticos conseguiram sobreviver tanto tempo sem perder a sanidade: a simples vontade de viver.

E o filme dirigido e escrito por Álvaro Brechner parece ser justamente sobre essa vontade, e como ela se cala e se manifesta dada a primeira oportunidade. Os três presos, interpretados por Com Antonio de la Torre (José Mujica), Alfonso Tort (Eleuterio Fernández Huidobro) e Chino Darín (filho de Ricardo Darín e que aqui faz Mauricio Rosencof), se entregam a interpretações que na mente e no corpo nos revelam a loucura completa quando ideologias fazem homens prenderem homens pelo simples fato deles pensarem diferente.

Claro que esta é a versão de Brechner. Baseada no livro ‘Memorias del calabozo’ escrito por Rosencof e Huidobro, o resultado dramático é muito polarizado, transformando os militares em completos palermas sem coração (e sem cérebro também, aparentemente). Para o autor do livro e do filme eles são apenas rostos de quem enxerga o mundo dividido em opressores e oprimidos (dica: para essas pessoas os heróis são sempre os oprimidos). De qualquer forma, o filme se concentra muito pouco no processo político e muito mais no período em que esses três ficaram confinados e trocando de prisão a toda hora, e é isso o que o torna uma experiência intensa, claustofóbica e de uma linguagem que lembra Cinema do começo ao fim.

Para começo de conversa, Brechner adota uma postura subjetiva de seus personagens da vida real, que é o correto quando precisamos demonstrar como seria ser um preso que não sabe nada sobre sua prisão, seus algozes, quando vai sair de lá, se alguém sabe se está vivo, etc. Os quadros são bem fechados e movimentados, dando o feeling de desorientação que aquelas pessoas com certeza passaram. Essa tortura da solidão e o vai-e-vem que nunca termina nos pensamentos de quem passou por essa situação é visualmente materializada na câmera giratória do diretor, que desde a primeira cena traduz as inúmeras agressões físicas e psicológicas sem uma data para terminar em uma câmera que gira em torno das celas onde os presos são torturados, ou mais para frente, em uma prisão circular onde Mujica começa a questionar sua sanidade de tanto que já deu voltas em torno de si mesmo, misturando sons repetitivos, passado e o iminente futuro onde irão querer arrancar informações sobre seus colegas lá fora.

Começando já sem nenhuma esperança de dias melhores, “Uma Noite” consegue extrair sua poesia quando um dos presos descobre que pode se comunicar com outro através de batidas na parede. Batidas ocas, feitas com os dedos já em osso puro pela falta de comida. A batida do osso do dedo nas paredes secas de sua prisão são menos dolorosas que a chance de se comunicar com outro ser humano. As conversas que seguem são banais, cotidianas, e é justamente o que essas pessoas precisam para seguir dia após dia sem perder a cabeça. Eles até jogam xadrez através do sistema que inteligentemente deduzem, o que rapidamente demonstra que não se trata de presos comuns (ainda que você saiba já a história pode ir aprendendo esses detalhes pelo próprio filme).

Da mesma forma, o jeito que um dos presos convence um soldado e mais pra frente um sargento a escrever carta para suas amadas extrai uma necessidade de conexão que parecia ter se perdido na militarização dessas vidas após o golpe no Uruguai. Tanto que, de uma maneira quase que simbólica, o soldado que tem uma carta escrita para uma garota pelo preso dotado de habilidades literárias não sabe o que fazer com a carta, sendo que o óbvio é enviá-la para a garota. Parece bobo, mas é justamente nesses detalhes que extraímos não apenas a completa perda de humanidade de soldados que apenas esperam por mais ordens, como também explica um pouco do mundo lá fora (que nunca é mostrado, apenas em flashbacks antes da captura e alguns momentos onde eles podem ouvir rádio ou ler alguma notícia de jornal).

A fotografia do filme não segue a paleta padrão escura da solitária em filmes do gênero, mas prefere um amarelo agreste e desértico, em cenários que quase sempre possuem areia em seu solo e um sol ardente mas invisível, para ressaltar o isolamento dessas pessoas do resto da humanidade. Eles estão perdido em um deserto onde eles mesmos se colocaram e agora não conseguem mais voltar. E o mais tocante é entender que se pudessem escolher provavelmente seguiriam os mesmos passos. É a sensação de princípios que conseguimos notar na dignidade de cada um dos três em lidar com o dia-a-dia, ainda que eles sequer consigam a privacidade e as condições mínimas para poder fazer suas necessidades (em um momento hilário que demonstra como a burocracia e incompetência do Estado pode ser exemplificada em apenas um problema envolvendo um banheiro e algemas).

Fechando o ciclo com uma versão fabulosa de Sound of Silence da cantora espanhola Silvia Pérez Cruz, Uma Noite de 12 Anos é um presente bem-vindo dessa passagem dura da história do Uruguai, e assim como todas as passagens duras da história isso deve nos prestar como um alerta importante de coisas que não devemos repetir no futuro. Não é apenas uma mensagem para os uruguaios: é uma lição de onde ficam escondidos os horrores ideológicos quando a crueldade vira sistêmica.

Wanderley Caloni, 2018-10-02. La noche de 12 años. Uruguai, Argentina, Espanha, 2018. Escrito e dirigido por Álvaro Brechner. Com Antonio de la Torre, Chino Darín, Alfonso Tort. IMDB.