Uma Viagem Extraordinária

Jean-Pierre Jeunet parece ter ganhado uma muleta narrativa: é incapaz de desenvolver seus personagens sem esmiuçar suas características com todo tipo de artifício voando pela tela. O ruim disso é que nem sempre é necessário para o desenvolvimento da história, e em Uma Viagem Extraordinária certamente não o é para todos os seus personagens, exceto para T.S. Spivet (Kyle Catlett), o herói da viagem do título. Um garoto de 10 anos que vive com sua família em uma fazenda no oeste dos Estados Unidos, uma região montanhosa que a ótima fotografia de Thomas Hardmeier é capaz de tornar ainda mais bela com o uso das cores primárias (azul, vermelho, verde) adoradas pelo diretor. Ele é um menino prodígio da ciência e demonstra isso constantemente através da sua maneira obsessiva com que cataloga dados do mundo à sua volta, e nesse caso os gráficos voadores de Piere Jeunet vem bem a calhar, pois dá uma visão “cientificada” da realidade.

Uma de suas invenções ganha um prêmio de um instituto de ciência que fica do outro lado do país e concluindo que esse é seu destino decide ir em busca de uma nova vida sozinho. Vários detalhes em torno da decisão do garoto giram em torno da morte do irmão gêmeo, que abala a família até hoje a ponto de nunca terem tocado no assunto, além de tocarem suas vidas sem quase nenhuma interação, apesar de morarem juntos em um lugar isolado.

O ponto forte do filme é de fato a direção de arte, que faz um trabalho como sempre impecável e recheado de trilhas sonoras evocativas. Isso quase que compensa a falta de um foco na história, que parece mudar de tom em diversos momentos, sem nunca parecer avançar de fato em nenhum deles. A noção do diretor-roteirista a respeito de problemas familiares é infantil e nunca consegue atingir um grau de complexidade a ponto de nos importarmos com o assunto. Dessa forma a viagem de T.S. é apenas mais um acontecimento entre outros. Tanto assim o é que quando sua família o reencontra a percepção é que nada parece ter mudado. No fundo, a obstinação do menino em esmiuçar a realidade em mapas dá a impressão dele sofrer algum grau de autismo. Porém, é difícil saber quando tudo é motivo para pular objetos na tela sem entendermos a verdadeira razão do que está acontecendo (se é que há alguma).

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2014-12-01 imdb