Veludo Azul

Jan 14, 2016

Imagens

Esse filme nos deixa a dúvida se ele é doentio ou se ele apenas reflete a doença no mundo. Não é de hoje que se acredita que violência é um sintoma da necessidade de controle de um indivíduo sobre outro. Muitas vezes isso assume o caráter sexual. E se adicionarmos uma moral nesse ingredientes, religiosa ou não, é óbvio que ela julgará como uma coisa mau e perversa.

E há apenas um diretor capaz de falar sobre todas essas coisas e não soar superficial, exagerado ou, pior, desequilibrar a equação entre violência, dominação, sexo, moral e uma certa dose de esoterismo. Esse alguém é David Lynch (Cidade dos Sonhos, O Homem Elefante). Sua narrativa pouco convencional nos entrega uma obra-prima que investiga a fundo a psique humana da curiosidade e explora seus personagens ao máximo.

O herói aqui é Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), um inocente e jovem rapaz e atraído pela curiosidade mórbida. Após ir visitar seu pai no hospital, encontra por acidente uma orelha humana em um terreno baldio. Ele faz o que deve: entrega à polícia. Porém, a curiosidade vai além e ele tenta obter mais informações do detetive responsável pelo caso (George Dickerson), depois de sua doce e ingênua filha (Laura Dern). São todos moradores do bairro em uma cidade pequena, o que é propício para que casos isolados da polícia aos poucos unam-se em apenas um, que gira em torno de Dorothy Vallens (Isabella Rossellini), uma enigmática cantora que recebe o título de Lady Blue e que está na lista de suspeitos de um assassinato não resolvido.

Logo “Blue Velvet” (Veludo Azul) não só faz parte da inspirada e psicodélica trilha sonora do filme, mas também do repertório e do figurino da cantora. E logo vemos que isso não é coincidência, mas uma relação doentia com uma pessoa violenta. O ritmo do filme é lento e vai sempre revelando mais detalhes, e nos convidando para essa curiosidade mórbida. Mais do que eu falei estragaria as melhores surpresas, mas tenha em mente que o vilão do filme (Dennis Hopper como Frank Booth) é surreal, talvez sobrenatural, e faz parceria de insanidade com Alex de Laranja Mecânica. É como se o vilão de Stanley Kubrick envelhecesse e se tornasse mais explosivo. Não, me corrijo: Frank Booth talvez seja um dos maiores vilões no Cinema, e ele tem um jeito único de te deixar inquieto.

Aqui há um jogo de bem contra o mal, mas também de dominante e dominado, são e insano. Diferente de trabalhos mais abertos do diretor, contudo, este contém uma trama comum e realista, ainda que esse realismo impacte tanto em nossa percepção da realidade que mais lembre um pesadelo. A mão de Lynch é vital para que a estranheza domine.

Utilizando o azul e o vermelho como símbolos em toda a narrativa, Lynch realiza trucagens que transportam-nos das cortinas da casa de Dorothy para a casa de shows onde costuma se apresentar. E o veludo, claro, é parte integrante da história.

Amarrando suas pontas de maneira exemplar, seja a temática, a narrativa ou até mesmo a esotérica, Veludo Azul envelheceu muito bem, e ainda hoje impressiona e choca. Um prato cheio em uma sessão David Lynch.

Wanderley Caloni, 2016-01-14. Veludo Azul. Blue Velvet (USA, 1986). Dirigido por David Lynch. Escrito por David Lynch. Com Isabella Rossellini, Kyle MacLachlan, Dennis Hopper, Laura Dern, Hope Lange, Dean Stockwell, George Dickerson, Priscilla Pointer, Frances Bay. IMDB.