Versos de Um Crime

Depois do ótimo Na Estrada (Walter Salles, 2012), o requisitado personagem da vida real Allen Ginsberg, o poeta americano da geração beat dos anos 50, é encarnado por Daniel Radcliffe (da série Harry Potter), e tem ao seu lado o igualmente ótimo Dane DeHaan (Poder Sem Limites, O Lugar Onde Tudo Termina) e um Michael C. Hall (da série Dexter) curioso, mas um tanto ausente. A história é retratada como um drama novelístico e televisivo, com impecável direção de arte, mas uma narrativa burocrática demais para funcionar com poetas que estavam revolucionando o mundo da literatura.

Aliás, essa noção revolucionária é passada de maneira periférica, assim como quase tudo no filme. Temos uma história arrastada que confia demais na interpretação de personagens que parecem não querer dizer nada a não ser a angústia amorosa que sentem. Toda essa riqueza de conteúdo que esses poetas deveriam supostamente ter é frustrada pelo conteúdo que vemos em tela.

Por outro lado, a beleza dos cenários e a concepção de um drama a partir da figura de Ginsberg, sua mãe enferma e seu relacionamento unilateral com Lucien Carr (DeHaan) tornam a experiência palatável enquanto aguardamos alguma coisa realmente impactante acontecer. Revelando uma falta de interesse notável na história, o diretor John Krokidas se preocupa demais com a beleza estética do vazio, e passagens curiosas como a invasão à biblioteca se tornam meras curiosidades, nunca atingindo o ápice que aparentemente deveriam produzir.

Com tudo isso, Versos de Um Crime parece mais uma história sobre garotos mimados que ainda não descobriram o sentido da vida e tentam constantemente se entregar a experiências para conseguir escrever algo que valesse à pena. Infelizmente, nem isso é possível detectar no filme. Talvez seja melhor ir ler direto na fonte.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-09-10 imdb