Viagem à Lua

Sep 1, 2011

Imagens

O francês Georges Méliès foi um dos privilegiados que assistiu à famosa primeira projeção (coletiva) de Cinema da história: A chegada do trem na estação.

E ficou maravilhado.

Ao ganhar um protótipo de câmera criado por Robert William Paul, um cinematógrafo da época, ficou tão entusiasmado que saiu por aí filmando o cotidiano de Paris. Até que, sem querer, a câmera parou de rodar. Ao iniciar nova filmagem, percebeu que a ação na filmagem não batia com a sequência que estava gravada: nascia o stop-action, ou stop-motion. Com base nisso, começou a experimentar novas trucagens, no que foi descobrindo que a nova invenção não impunha limites à mente criativa: perspectiva forçada, múltiplas exposições e até filmagens em baixa e alta velocidade. Tudo isso através da câmera mágica. E isso há mais de 100 anos atrás!

Com toda essa vontade de filmar a aprender sobre esse novo fenômeno, Georges Méliès se tornou um dos precursores da nova Arte. Inventou diversas técnicas utilizando conceitos hoje simples, mas que criavam efeitos na época inimagináveis (algo como um Michel Gondry do passado). Seu filme mais famoso, A Viagem para a Lua, está na lista dos 1001 filmes para se assistir antes de morrer, e tem apenas 17 minutos: uma breve espiada pelo túnel do tempo de como era fazer cinema em sua pré-história.

Apesar da cópia precária disponibilizada no Archive.org, podemos ver que se trata de uma produção de respeito. As cenas são elaboradas, e possuem uma arte final bem trabalhada. O grande destaque, o pouso do foguete na Lua, além do efeito de múltipla exposição de imagens, usa uma técnica narrativa que depois será copiada à exaustão: mostrar a mesma cena de formas diferentes.

As regras para assistir A Viagem para a Luz são as mesmas de hoje em dia: temos que nos deixar enganar, suspender a realidade, e participar do mundo fantasioso criado por Méliès (e uma ajudinha de Júlio Verne). A Lua do filme, ironicamente, é o próprio ser humano. Os cientistas, muito eloquentes, se trancam em seus próprios pensamentos, discutem entre eles. Seria a ciência um grupo fechado de pessoas com suas maluquices peculiares aos olhos do cidadão comum? Teríamos conseguido estreitar as barreiras de comunicação das descobertas científicas com o povo, ou ainda a visão comum de muitas coisas beira o misticismo? Seria esse o motivo de tantas religiões e rituais primitivos ainda predominarem sobre a moral humanista, mesmo com tantos avanços tecnológicos e filosóficos?

Nada que um filme de 100 anos atrás não faça pensar. Como diz Pablo Villaça: “não existe filme velho; só filme ainda não assistido.”

Wanderley Caloni, 2011-09-01. Viagem à Lua. Le voyage dans la lune (France, 1902). Dirigido por Georges Méliès. Escrito por Georges Méliès, Jules Verne, H.G. Wells. Com François Lallement, Jules-Eugène Legris, Victor André, Bleuette Bernon, Brunnet, Jeanne d'Alcy, Henri Delannoy, Depierre, Farjaut. IMDB.