Viagem Para Agartha

Makoto Shinkai – diretor/roteirista de inúmeros curtas (alguns na Netflix brasileira) – é chamado constantemente de “O Novo Miyazaki”, em referência ao animador e fundador dos estúdios Ghibli. Curiosamente o próprio Miyazaki é chamado de “Walt Disney do Japão”. Mais curioso ainda é que Miyazaki, enquanto idealizador, se preocupa muito com a mãe-natureza em seus filmes, que é quase um personagem à parte (seja ela natural, como em Ponyo, ou sobrenatural, como em A Viagem de Chihiro). Já em Viagem Para Agartha, um filme sobre um mundo exótico dentro da Terra, Shinkai parece muito mais preocupado com o interior dos seres humanos que retrata, já que o filme parece um eterno questionamento sobre a nossa dor – muitas vezes eterna – que sentimos quando perdemos alguém querido.

A história, que não tem pressa em ser contada, gira em torno da jovem Asuna, uma menina solitária que perdeu o pai quando criança e tem uma mãe que está sempre atarefada. Cuidando sozinha de casa por vários dias, Asuna ainda criou seu próprio mundinho debaixo de uma pedra na montanha do lado onde mora. Populado com mantimentos e livros, seu esconderijo secreto é o perfeito micro-cosmos do que está para acontecer em sua vida depois que conhece o professor substituto em sua escola; um viúvo que mora sozinho, e que mantém em sua pequena casa uma versão um pouco maior que o próprio cantinho de Asuna.

Depois de algumas reviravoltas iniciais envolvendo um menino mágico – algo que serve para alongar o filme, que não consegue utilizar o pai da protagonista para a mesma função por ela ser muito nova – Asuna e seu professor irão explorar o que o título brasileiro já acusa. Agartha é uma terra lendária no centro da Terra, lar de seres humanos mais evoluídos e que constantemente protegem a sua entrada dos seres da superfície, vistos através dos últimos milênios de conquistas e exploração das inúmeras civilizações que tentaram invadi-la.

Também é o nome de um dos planetas (fictícios) citados em Voices of a Distant Star, um dos primeiros curtas do diretor. Ao explorarmos a ainda curta filmografia de Shinkai, veremos que seus trabalhos dialogam entre si, com referências a personagens e situações.

Aliás, é extremamente frutífero comparar os traços desse seu trabalho inicial com as rebuscadas paisagens de “Viagem Para Agartha”. Se em “Distant Star” há o lúdico e até o poético disfarçados de ficção científica, aqui é o mitológico dando vazão a vertigens visuais que lembram trabalhos mais complexos como O Senhor dos Anéis.

No entanto, como um cacoete das animações japonesas como um todo, e até um traço peculiar de seu roteirista, o filme frequentemente soa episódico, com diversos fades, que dão a sensação de cansaço em um filme não muito longo. Além disso, há a frequente exposição da história em diálogos dos personagens, que revelam convenientemente tudo que precisamos saber sobre aquele mundo, e embora ele vá se abrindo aos poucos, poucos momentos se igualam à primeira perseguição dos monstros que surgem das sombras.

Apesar de não encontrar de fato respostas para questões vitais do longa, como a saudade/dor dos entes queridos que se foram, “Viagem Para Agartha” dá tudo como resolvido enquanto conclui a história durante os créditos finais (outro traço do diretor). É no roteiro que se encontra a principal falha do filme, que embora visualmente arrebatador em alguns momentos, carece da sutileza narrativa ou da exploração melhor de seus personagens. Do jeito que está, embora seja um longa de duas horas, ele permanece um experimento poético vazio, mesmo que muito, muito bonito.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-08-05. Viagem Para Agartha. Hoshi o ou kodomo (Japan, 2011). Dirigido por Makoto Shinkai. Escrito por Makoto Shinkai. Com Hilary Haag, Corey Hartzog, Leraldo Anzaldua, David Matranga, Shelley Calene-Black, Shannon Emerick, Sam Roman, Emily Neves, Brittney Karbowski. imdb