Vida Selvagem

Uma ode aos ripongas? Nem tanto. Vida Selvagem caminha lado a lado com um outro filme indie mais lúdico: The Real St. Nick (que estava disponível no MUBI em 2012 e tive o prazer de assistir). A abordagem de câmera na mão e cenários simples faz todo o sentido aqui. A história gira em torno de viver uma vida fora das normas consumistas da sociedade. Ou melhor ainda: fora das leis que remetem à estupidez e ignorância no trato com seres humanos.

A premissa é simples: uma família vivia no mato. Até que a mãe (Céline Sallette) desiste de tudo, e “rouba” os filhos do marido (Mathieu Kassovitz, de Amélie Poulain), voltando para a casa dos pais. Os primeiros momentos do filme são tensos demais. Logo temos uma família despedaçada e cujo tempo irá transformar.

E não só isso. Há diversas discussões rolando ao mesmo tempo. Fala-se da vida mais simples, mas eles moram cercados de benesses do capitalismo (embora no mato). Fala-se do ridículo da vida consumista, em uma opinião hippie que eu me identifico, embora não de forma tão radical e unilateral. Aliás, são as decisões unilaterais que soam completamente angustiantes no filme, tanto na lei quanto na mãe, ou até no pai. Ou é tudo ou é nada. Há grandes vantagens em viver no mato e distinguir cobras pela feição do “nariz”. Mas há vantagens inegáveis na civilização ocidental; isso o filme prefere ignorar.

Ou até que não. Em dado momento da história entram questionamentos a respeito da convivência pacífica que parecem quase se contradizer à aparente paz que existiria em um ambiente de posses coletivas. Dessa forma, floresce a necessidade da invenção mais básica da evolução do ser humano como indivíduo: a propriedade privada. Da mesma forma os contratos, regras de comum acordo entre as pessoas para resolver conflitos. Ambas são atravessadas por intolerância à forma de vida não-riponga. É até curioso ver que, quando um filme fica bom demais em seus argumentos, ele rapidamente sai do lado esquerdo e começa a cuspir obviedades para qualquer liberal, mas revolucionárias para mentes retrógradas que apenas pensam na vida na natureza.

Porém, verdade seja dita. Baseado na vida de personagens reais, muitas pessoas sonham – ou dizem sonhar – em viver em meio a natureza e sair da loucura da cidade grande. Poucas realmente realizam esse desejo. Essas pessoas, principalmente o pai, tiveram a ousadia de viver. E ele não é um ignorante do mato. Sempre tentando educar os filhos e preocupado em plantar residência, a simplicidade das ações e dos pensamentos de Paco são contagiantes, enquanto os anseios da mãe, Nora, são inebriantes, embora completamente irracionais.

A direção de arte, fotografia e figurino fazem um trabalho digno de nota. As vestes de Nora, por exemplo, mudam radicalmente, se um vestido florido e tranças para um bege tradicional, opressivo por lembrar roupa social. Os filhos, por sua vez, se antes exibiam longos e fabulosos cabelos selvagens, na adolescência há o medo da rejeição e a necessidade de se enturmar. Não importa onde se vá, o homem é um animal social, dentro e fora da norma.

É com idas e vindas no tema que Vida Selvagem consegue representar bem o seu conflito, e nunca passe despercebido. Toda tomada tem um porquê de existir, e é lindo notar como toda a narrativa é enxuta. Baseado no livro dos irmãos Fortin, apenas os diálogos foram compostos por Nathalie Najem e o diretor Cédric Kahn. E eles são tão econômicos e não-expositivos que soam sempre naturais. Um trabalho impecável. Não se perdesse tanto no seu tema, ou pior, não forçasse tanto a emoção (não sem motivo, mas sem sutileza), seria ainda melhor.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-06-09 imdb