Vida Selvagem

Jun 9, 2016

Imagens

Uma ode aos ripongas? Nem tanto. Vida Selvagem caminha lado a lado com um outro filme indie mais lúdico: The Real St. Nick (que estava disponível no MUBI em 2012 e tive o prazer de assistir). A abordagem de câmera na mão e cenários simples faz todo o sentido aqui. A história gira em torno de viver uma vida fora das normas consumistas da sociedade. Ou melhor ainda: fora das leis que remetem à estupidez e ignorância no trato com seres humanos.

A premissa é simples: uma família vivia no mato. Até que a mãe (Céline Sallette) desiste de tudo, e “rouba” os filhos do marido (Mathieu Kassovitz, de Amélie Poulain), voltando para a casa dos pais. Os primeiros momentos do filme são tensos demais. Logo temos uma família despedaçada e cujo tempo irá transformar.

E não só isso. Há diversas discussões rolando ao mesmo tempo. Fala-se da vida mais simples, mas eles moram cercados de benesses do capitalismo (embora no mato). Fala-se do ridículo da vida consumista, em uma opinião hippie que eu me identifico, embora não de forma tão radical e unilateral. Aliás, são as decisões unilaterais que soam completamente angustiantes no filme, tanto na lei quanto na mãe, ou até no pai. Ou é tudo ou é nada. Há grandes vantagens em viver no mato e distinguir cobras pela feição do “nariz”. Mas há vantagens inegáveis na civilização ocidental; isso o filme prefere ignorar.

Ou até que não. Em dado momento da história entram questionamentos a respeito da convivência pacífica que parecem quase se contradizer à aparente paz que existiria em um ambiente de posses coletivas. Dessa forma, floresce a necessidade da invenção mais básica da evolução do ser humano como indivíduo: a propriedade privada. Da mesma forma os contratos, regras de comum acordo entre as pessoas para resolver conflitos. Ambas são atravessadas por intolerância à forma de vida não-riponga. É até curioso ver que, quando um filme fica bom demais em seus argumentos, ele rapidamente sai do lado esquerdo e começa a cuspir obviedades para qualquer liberal, mas revolucionárias para mentes retrógradas que apenas pensam na vida na natureza.

Porém, verdade seja dita. Baseado na vida de personagens reais, muitas pessoas sonham – ou dizem sonhar – em viver em meio a natureza e sair da loucura da cidade grande. Poucas realmente realizam esse desejo. Essas pessoas, principalmente o pai, tiveram a ousadia de viver. E ele não é um ignorante do mato. Sempre tentando educar os filhos e preocupado em plantar residência, a simplicidade das ações e dos pensamentos de Paco são contagiantes, enquanto os anseios da mãe, Nora, são inebriantes, embora completamente irracionais.

A direção de arte, fotografia e figurino fazem um trabalho digno de nota. As vestes de Nora, por exemplo, mudam radicalmente, se um vestido florido e tranças para um bege tradicional, opressivo por lembrar roupa social. Os filhos, por sua vez, se antes exibiam longos e fabulosos cabelos selvagens, na adolescência há o medo da rejeição e a necessidade de se enturmar. Não importa onde se vá, o homem é um animal social, dentro e fora da norma.

É com idas e vindas no tema que Vida Selvagem consegue representar bem o seu conflito, e nunca passe despercebido. Toda tomada tem um porquê de existir, e é lindo notar como toda a narrativa é enxuta. Baseado no livro dos irmãos Fortin, apenas os diálogos foram compostos por Nathalie Najem e o diretor Cédric Kahn. E eles são tão econômicos e não-expositivos que soam sempre naturais. Um trabalho impecável. Não se perdesse tanto no seu tema, ou pior, não forçasse tanto a emoção (não sem motivo, mas sem sutileza), seria ainda melhor.

Wanderley Caloni, 2016-06-09. Vida Selvagem. Vie sauvage (Belgium, 2014). Dirigido por Cédric Kahn. Escrito por Okwari Fortin, Shahi'Yena Fortin, Xavier Fortin, Cédric Kahn, Nathalie Najem, Laurence Vidal. Com Mathieu Kassovitz, Céline Sallette, David Gastou, Sofiane Neveu, Romain Depret, Jules Ritmanic, Jenna Thiam, Tara-Jay Bangalter, Amandine Dugas. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).