Vida

2017/04/24

Esta é uma releitura de “Alien, o Oitavo Passageiro” que parece mais realista, ou pelo menos mais próxima de nossa realidade. De toda forma, ela apresenta duas mudanças principais. Primeiro retira aquela impressão de que um alienígena está sendo propositadamente mal, já que analisa com muita propriedade que toda vida tem que matar para continuar vivendo. Segundo, não conseguindo conter o terror dentro da faceta dramática e grandiosa do enredo, o filme vai apelando pontualmente para o trash de bom orçamento, até se entregar de vez ao caricato. Isso gera surpresas na medida em que um filme decide fazer pouco dele mesmo pelo bem da brincadeira. Mas não é tanta surpresa se considerarmos que um dos primeiros diálogos cita o filme A Noite dos Mortos Vivos um clássico terror de zumbis.

Usando uma tomada inicial do infinito universo e suas estrelas e galáxias com uma trilha sonora grandiosa e fontes do título que entregam desde o início que esta é uma releitura ou homenagem (ou ambos) do filme de Ridley Scott, o diretor Daniel Espinosa mantém este tom até certo ponto. A história é sobre a missão Pilgrim (Pioneiro), realizada através de uma sonda em Marte que obtém amostras de solo para análise na Estação Espacial, bem em cima de nossas cabeças. A boa notícia é que eles encontram uma célula de vida reanimada com as condições semelhantes à atmosfera da Terra. A má notícia é que esta é uma forma de vida forte, inteligente e que cresce rapidamente em busca de novas presas, coisa que ela poderá facilmente encontrar no ambiente aqui da Terra.

Apresentada ao mundo em um evento global onde alunos de uma escola batizam a primeira forma de vida alienígena de Calvin, as comunicações terrestres depois do primeiro sinal de hostilidade do “oitavo passageiro” são convenientemente cortadas. E a partir de uma tripulação em que sabemos uma coisa ou outra – mas principalmente que são um grupo multiétnico de pessoas muito semelhantes ao filme “Alien” – vamos acompanhando mais uma vez a dor de não sermos mais a única espécie inteligente e predadora a bordo. Pior: este é um ser cuja estrutura celular possui de maneira uniforme a função de cérebro, músculos e olhos, uma tríade que tem o potencial de torná-lo muito poderoso, pois qualquer parte da criatura poderia ser cortada e ela continuaria operando. Pena que o filme se esquece de colocar todo esse poder à prova, e esse detalhe inicialmente empolgante logo se perde nos diferentes tipos de mortes que vemos ao longo da projeção.

O filme exibe uma certa visão positiva sobre os seres humanos na nave em órbita da Terra, enquanto paradoxalmente demonstra como os humanos que ficaram no planeta (nós) são uns desgraçados que geram guerras. De uma maneira confusa o filme vai delineando sua moral, e para isso usa seres humanos extremamente altruístas dispostos a se sacrificar de maneira racional para evitar que Calvin cause um estrago irreversível no único habitat controlado para os seres humanos. Este é um passeio mais ou menos controlado por um remake de filme de terror, e se mantém do começo ao fim como um entretenimento visual e uma graça em sua trilha sonora, que oscila entre o dramático grandioso do começo passando pelo terror incidental e quase inconsequente.

Existem surpresas positivas no elenco, que é uniforme e competente. Porém, os personagens dos bons Jake Gyllenhaal e Rebecca Ferguson (e o que Ryan Reynolds está fazendo aqui, mesmo?) parecem ter pouco tempo para desenvolvê-los. Tudo gira em torno da nova espécie e como ela é inteligente, fascinante e… está matando todo mundo. E como um dos tripulantes espirituosamente comenta, desde o início o ser descoberto parece sentir mais curiosidade que medo. Porém, em vez de terminar a cena na criatura, a câmera começa a mostrar os astronautas, seres humanos olhando atentos através do vidro, em uma espécie de analogia com um zoológico. Mas no caso é um zoológico que mantém suas feras atrás de grades de papelão.

Depois que o predador obviamente se liberta da jaula de biólogos inocentes, a capacidade do filme em não permitir que o espectador se localize em uma geografia tão simples quanto a estação espacial é gritante, atingindo o absurdo de vermos um holograma com o mapa da nave e mesmo assim não entendermos onde está cada passageiro. Isso não impede que frequentemente sejam feitas alusões a trabalhos menos estabanados como 2001 (e suas portas giratórias), além de usar também exageradamente o vermelho para praticamente todo sinal de perigo. E os sinais de perigo começam a ficar repetidos de uma forma irritante rapidamente, a ponto de não fazer muita diferença.

Este é um filme com crise de identidade. Ele começa como um drama inteligente que poderia muito bem fazer jus ao seu título simples, mas instigante. No entanto, inseguro de si, o roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick parece querer surpreender de qualquer forma, evitando o caminho natural e muito mais ambicioso de mostrar que a vida é algo muito menos poético do que a imaginamos, mas uma metáfora poderosa sobre a existência no universo.

★★★☆☆ Título original: Life. País de origem: USA. Ano 2017. Direção: Daniel Espinosa. Roteiro: Rhett Reese. Paul Wernick. Elenco: Hiroyuki Sanada (Sho Murakami). Ryan Reynolds (Rory Adams). Rebecca Ferguson (Miranda North). Jake Gyllenhaal (David Jordan). Olga Dihovichnaya (Ekaterina Golovkina). Ariyon Bakare (Hugh Derry). Jesus Del Orden (Student 2). Allen McLean (Student 1). Leila Grace Bostwick-Riddell (Student 3). Edição: Mary Jo Markey. Frances Parker. Fotografia: Seamus McGarvey. Trilha Sonora: Jon Ekstrand. Duração: 104. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Horror. Estreia no Brasil: 20 April 2017. Tags: cinema

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