Vingadores: Guerra Infinita

May 3, 2018

Imagens

Avengers: Guerra Infinita nem parece ter duas horas e meia. E nem parece ter dúzias de super-heróis. Centrado mais no Mal (com letra maiúscula) frio, calculista e encarnado pela figura de Thanos (Josh Brolin), o “maior crossover da história” (by Marvel) é uma guerra que ocorre em diferentes níveis entre diferentes formas de heroísmo. Preferindo ser narrado como um drama fantástico e urgente que tem a cara, a alma e a paleta de cores dos quadrinhos, o trabalho colossal dos dois irmãos diretores Anthony Russo e Peter Russo atravessa fronteiras entre universos e realiza pequenos milagres na composição de quadro, de ritmo, de narrativa e de roteiro (encaixar todo este instigante roteiro e não torná-lo enfadonho é, sim, um trabalho admirável de direção) de forma a compor o maior trailer já visto na história do Cinema em uma produção massivamente inchada de efeitos. E o fato de sequer repararmos que muitas das mini-histórias que acompanhamos não fazer muito sentido isoladamente ou que o cenário da computação é pesado, mas veio para ficar, é graças a uma produção preparada e pensada 15 filmes atrás, quando o maior sonho que uma criança já teve se tornou realidade nas telonas da sétima arte.

A história principal é simples: grande vilão do mal tem um motivo nobre para cometer o maior genocídio do universo: eliminar metade de todos os povos que habitam as galáxias para que o resto da população viva em abundância de recursos. Em outras palavras: comunismo aplicado em uma escala global. Juntando vários arcos de várias histórias paralelas, sendo seu núcleo a união dos Guardiões da Galáxia com os Vingadores, sendo que os próprios Vingadores foram se formando a partir das histórias solo de seus membros, como Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Pantera Negra (para preencher cota), entre outros, o objetivo de todos eles com certeza se torna um só quando o universo e o planeta em que a maioria vive (coincidentemente, a nossa Terra) sofre uma ameaça dessa escala. Portanto, torna-se natural que todos tentem fazer algo contra o maior vilão da Marvel da atualidade, criado desde o primeiro filme dos Vingadores e alimentado aos poucos, muito embora pouco saibamos de sua origem e de sua personalidade.

Isso se não fosse pela interpretação primorosa neste filme de Josh Brolin, que apesar de depender de expressões e dicção maquiadas para seu personagem, realiza um trabalho sensível e calculado, quase shakesperiano, que traz humanidade e uma certa racionalização que se torna tentadora na medida certa, a ponto de antes de temê-lo ou odiá-lo, compreendê-lo. Mas mesmo assim ficamos do lado dos Vingadores porque sabemos que as ações do vilão, mesmo que movidas por um objetivo que ele julga ser o certo, estão erradas. Sabemos que é errado torturar pessoas para conseguir o que se quer, ou matar aleatoriamente indivíduos por um bem maior, mesmo que os sobreviventes estejam melhor no final. E se você entende isso, caro leitor, quer dizer que apesar de qualquer viés político que você tenha, no seu íntimo você é incapaz de ser um socialista ou coletivista, acreditando que os fins justificam os meios.

A não ser que você enxergue Thanos como herói, e é aí que a subversão do Universo Marvel neste filme se torna muito mais interessante que todos os seus filmes preparatórios juntos.

Apesar desse pensamento nunca se tornar forte durante todo o longa, ele o permeia, fazendo provavelmente você divagar pelo menos uma ou duas vezes conforme Thanos fala sobre suas motivações. Em algum momento talvez você pense: “esse cara talvez tenha sua dose de razão.”

E como Thanos fala! Chega a ser enfadonho em alguns momentos. Mesmo provocando um clima de urgência que é responsável por um filme de ação frenético que quase não pára para respirar, e quando o faz, é em uma sala de reunião “apertada” (ilusão de ótica da câmera, sempre em movimento e com muitos cortes) em que nossos super-amigos vão tentando armar frentes de combate o mais rápido possível, sempre olhando para baixo, em um clima claramente angustiante, Thanos parece estar sempre sob o controle da situação, parecendo ter pensado em tudo muito antes das batalhas realmente acontecerem (o que na prática não se torna o clichê da “jogada de mestre”, pois o que vemos são perdas de ambos os lados). O que ele faz, contudo, é andar como um ator anda pelo palco de um teatro, admirando seu próprio feito e vivenciando, assim como aquela criança que hoje tem o privilégio de assistir esses filmes no cinema, a realização dos seus sonhos mais pueris, conforme ele vai obtendo uma a uma suas jóias do infinito, o artefato mágico deste filme.

Outra virtude do longa é nunca permitir que o espectador perceba que algo está fora de encaixe. Repleto de falas rápidas e sarcásticas, o encontro de vários heróis pela primeira vez é feito de maneira assertiva, sempre em um clima de emergência, e nunca permitindo devaneios muito longos. Todo o roteiro é pensado em como dinamizar a interação de personagens que nunca se viram, de maneira que eles rapidamente se acostumam uns com os outros porque precisam trabalhar juntos por um bem comum. Essa é uma constante durante todas as rápidas alianças que vão se formando, e ninguém possui de fato muito tempo para pensar (nem nós, sentados estupefatos na tela, vendo explosões, raios, e trovões por todos os lados).

Como toda guerra, sacrifícios serão feitos e revezes terão que ser rapidamente assimilados para seguir em frente. E neste caso o Universo Marvel dá seu primeiro grande passo em direção à maturidade, muito embora as mortes humanas, como sempre, estarão devidamente ocultadas sob o vel da censura nos cinemas, permitindo que qualquer pré-adolescente aprecia lutas de vida ou morte sem que pese muito as consequências disso.

Ou quase. A sequência que envolve a introdução de Visão e a Feiticeira Escarlate é o único romance que parece ter funcionado nesses filmes, e por isso mesmo tememos pelos dois nessa sequência, talvez a única que tenha uma certa dose de textura emocional adulta. Todo o resto é pesado no sentido da escala do que vemos, e não das pessoas envolvidas, e é admirável que o filme consiga nos fazer sempre lembrar o que está em jogo.

Quando um certo sacrifício ocorre no terceiro ato seu impacto não é tão intenso como poderíamos imaginar, porque há certos personagens que já julgamos invulneráveis e infinitos, e o seu fim não consegue ser devidamente processado pelo espectador de filmes de heróis. Acostumados à máxima de que “nenhum super-herói morre de verdade nos quadrinhos”, o mesmo pode-se dizer de qualquer história que acompanharmos. Isso quer dizer que o impacto imaginado pela Marvel foi sabotado por ela própria e pelas regras implícitas do jogo. E quando isso ocorre em uma escala um pouco maior é ainda pior, pois chega-se no nível de banalizar mortes.

Portanto, há um único personagem completo aqui capaz de elucidar essa montanha-russa de emoções, e este é Thanos. Todos são coadjuvantes de luxo em batalhas épicas que irão levar com certeza os fãs ao delírio. Um delírio vazio, uma hype concentrada, um ultra-mega-trailer de qualidade incomparável com uma trilha sonora retumbante que reafirma o poder desta mega-indústria de fazer sonhos virarem realidade.

Wanderley Caloni, 2018-05-03. Avengers: Infinity War. EUA, 2018. Escrito por uma porrada de gente, dirigido por Anthony Russo, Joe Russo. Com uma porrada de gente. IMDB.