Violação de Privacidade

Robin Williams devia ter se aposentado de suas atuações em comédia. Porém, assistindo a filmes como Insônia, Retratos de uma Obsessão e este Violação de Privacidade, se torna até compreensível que o ator resolva dedicar metade do seu tempo para filmes açucarados para equilibrar esse seu lado sombrio e penetrante.

Aqui ele faz o papel de Alan Hakman, um Editor, mas não no sentido que você conhece. Estamos em um futuro ou realidade alternativa onde algumas pessoas (1 em 20) escolhem implantar uma espécie de gravador de áudio e vídeo em seus filhos antes do nascimento. Após sua morte, um editor tem acesso a todas as centenas de milhares de horas de suas vidas e realiza um filme baseado nos “melhores momentos”, ou melhor dizendo, os melhores momentos que a família está interessada em ver refletida na tela durante sua exibição (chamada de Rememorização).

Obviamente a família irá ignorar todos os momentos que na verdade gostariam de esquecer sobre o defunto, e é isso o que torna o personagem de Robin Williams tão trágico. Amaldiçoado desde sua infância com a visão de um menino que acabara de conhecer despencando em um poço por causa de sua ousadia em arriscar sua vida, Hackman é o que ele mesmo se denomina de “devorador de pecados”, uma figura mitológica que expia sua culpa absorvendo a culpa de outras pessoas. Não é preciso mostrar muita coisa da vida das pessoas que Hackman homenageia. Assim que ele abre um arquivo, o sistema (chamado de Guilhotina) realiza uma seleção e um catálogo por categorias, incluindo família, profissão, hobbies, masturbação, violência. De fato, não é preciso entender muito dentro do filme para perceber que todas as pessoas, no decorrer de suas vidas, terão algo a se arrepender, e que gostariam que ninguém nunca soubesse. Hackman, em contraponto, parece querer mergulhar nesse mundo sombrio, revendo os piores momentos das pessoas, como a tentar se redimir por comparação.

A direção e o roteiro de Omar Naim parecem ligeiramente se esbaldar em cima de uma ideia não tão profunda, complexa ou inquietante. Se enxergando como um Minority Report, o filme perde um pouco de sua credibilidade em momentos mais tensos que são indevidamente forçados por Naim, como a visão de Hackman cercado de centenas de imagens, ou uma perseguição no cemitério onde um tiro inicia o playback de um dos túmulos. Além disso, detalhes como o formato em madeira da Guilhotina colocam Violação de Privacidade fora do espectro temporal, sugerindo ser um velho futurista, mas sem um motivo muito bem definido para tal. O mesmo se pode dizer da trilha sonora, que grita aos quatro ventos ser um thriller inesquecível e impactante. E de fato o é, mas em termos. Talvez a melhor figura técnica do filme seja mesmo a fotografia, sombria e magnetizada por tons pastéis, como se o sol estivesse eternamente se pondo ou oculto, em uma espécie de alvorada ou pesadelo ocorrendo múltiplas vezes.

Violação de Privacidade é a prova do talento nato de Williams em contemplar sua própria persona obsessiva e inquietante. O filme talvez careça de uma polida, mas certamente explora bem suas ideias. Depois de seu final, talvez o ator tenha que fazer mas uma vez uma comédia em que coloca um nariz vermelho em sua cara. Só assim para recuperar a sanidade outra vez.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-03-13. Violação de Privacidade. The Final Cut (USA, 2004). Dirigido por Omar Naim. Escrito por Omar Naim. Com Robin Williams, Mira Sorvino, Jim Caviezel, Mimi Kuzyk, Stephanie Romanov, Thom Bishops, Genevieve Buechner, Brendan Fletcher, Vincent Gale. imdb