Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos

Warcraft consegue manter o tema de estratégia de guerra do jogo viva no filme; de quebra, exibe um dos melhores efeitos visuais do ano. Não aquele que impressiona por impressionar, mas o que está a serviço da narrativa. E com uma história para contar, ainda consegue estar à altura dos melhores trabalhos da produtora desse e outros games. A Blizzard, pelo jeito, não se cansa de impressionar.

Baseado em um video-game de RTS (Real Time Strategy, ou Estratéga de Tempo Real), que mais tarde se tornou um RPG consagrado, a história gira em torno dos detalhes de jogabilidade, como o uso da magia em ambas as raças, o poder guerreiro dos orcs, além de seu respeito incondicional às suas tradições, e a habilidade na política dos seres humanos.

Mas eu disse duas raças? Warcraft, já no filme de estreia, já ensaia abrir uma franquia que possui um potencial interessante. O mundo dos humanos é pacífico, e lá habitam diferentes raças em harmonia. Há um quê de Senhor do Aneis em muitos momentos.

No entanto, o foco desse filme é mesmo a batalha entre humanos e orcs. Tendo seu mundo destruído, os orcs realizam uma “migração” graças ao uso de uma magia maligna, que suga a energia das pessoas – de qualquer raça – e produz um mana verde que permite abrir um portal entre dois mundos.

Há diferentes personagens de ambos os lados que lembram peças em um jogo de xadrez. O roteiro de Charles Leavitt e Duncan Jones (do ótimo Lunar) está a todo momento sugerindo nosso desconhecimento do que essas criaturas poderão ou não fazer, e qual sua função na batalha iminente. Ninguém no elenco se sobressai em particular, mas ninguém estraga a festa (com exceção de uma inexpressiva Ruth Negga como Rainha Taria, que felizmente tem pouquíssimo tempo de tela). A interação homem/orc é sempre interessante, e o roteiro acertadamente escolhe apostar mais nos diálogos do que em batalhas frenéticas.

Isso permite duas coisas. Primeiro observar a fabulosa direção de arte, que consegue transformar um universo criado para um jogo em algo mágico, mas ao mesmo tempo realista, evocando a grandeza do império humano e a sociedade tribal dos orcs. Mais do que isso, porém, é ficar a todo momento percebendo os inúmeros detalhes do rosto dos orcs, que consegue expressar um rosto humano na cara de um monstro, e soar perfeitamente crível a todo momento (diferente de um pássaro gigante voador, que oscila entre o muito bom e a falta de cuidado da computação em torná-lo muito destacado do ordinário).

Mais do que uma historinha para justificar uma batalha épica, Warcraft é a (re)criação de um universo que já tinha sido feito com total esmero pelos seus idealizadores originais. Usando uma metáfora eficiente para a magia que suga a vida das pessoas (vulgo Estado), as diferentes formas de interpretar a história já valeria a pena até uma revisita. E isso apenas pela história, quando estamos falando de um espetáculo visual.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-08-08 imdb