Watchmen O Filme

Wanderley Caloni, September 4, 2011

Watchmen seria uma história sobre anti-heróis ou heróis como eles seriam no mundo real? Desde o começo do filme, nos vemos embarcados nestes pensamentos, ajudados pela magnífica introdução que mostra, em câmera lenta, os vigilantes do filme posando para fotos jornalísticas, em uma fotografia super-sensível que, utilizando tons de sépia para identificar o passado, demonstra, desde já, o apuro estético de uma produção que está claramente acima do gênero “adaptação de quadrinhos”.

O filme começa com o assassinato de um desses heróis, o Comedian (Dean Morgan). Tanto as máscaras como os codinomes possuem o objetivo de impedir a identificação dos Vigilantes (em inglês, Watchmen), um grupo que, uma vez tendo suporte das autoridades como uma espécie de justiceiros dentro da lei, passariam aos poucos a serem renegados pela população, ciente cada vez mais que entregar o poder a uns poucos indivíduos dá abertura a abusos, como bem demonstram os dizeres de um protesto: “quem vigia os Vigilantes?”.

Esses heróis, por outro lado, são humanizados. Possuem um passado onde eram os maiorais, mas que já passou. Hoje, desiludidos, revivem a lembrança daquela época, onde a escolha cuidadosa da trilha sonora, com sucessos antigos, consegue pontuar maravilhosamente bem esse sentimento de nostalgia. Note, por exemplo, a primeira cena de ação: quando a televisão, ao som de “Unforgettable”, é atingida, a música não para, como se na cabeça do Comediante ela continuasse a martelar seus pensamentos. Esse jogo de música e realidade faz remoer o sentimento das coisas incríveis que foram feitas por essas pessoas em seu passado heroico, mas que parece ecoar de forma melancólica no presente sombrio.

Aliás, o aspecto sombrio do longa consegue ser percebido em diversos aspectos, onde o melhor exemplo é a fotografia: note como a maioria das cenas se passa de noite, e quase sempre durante uma interminável chuva, maximizada pelo uso da câmera, que termina de encarar os personagens sempre de cima. Para ajudar, Rorschach, o narrador da história e um dos antigos heróis, mantém-se sombrio e depressivo em suas caracterizações, representando, ao mesmo tempo, um investigador de filme noir e uma pessoa ressentida pelo mundo que mudou à sua volta. Apenas as falas de Rorschach remetem ao heroísmo de outrora, e é significativo que seu nome real nunca seja revelado, assim como o de seu arquinimigo Moloch, outra figura depressiva, embora secundária.

Ao descrever os personagens e suas relações através de diálogos econômicos e inteligentes, o filme caminha cada vez mais revela sobre a atmosfera em que viviam e o constraste com o presente. É interessante notar também como cada um deles encara os acontecimentos passados de forma diferente. Embora tenha um ar decadente, Sally Jupiter parece se abastecer dos tempos gloriosos de outrora, enquanto Dan Dreiberg, a Coruja Noturna, incorporado totalmente por Patrick Wilson, consegue transmitir em falas precisas e expressões pontuais, e seu semblante adequadamente cabisbaixo, um misto de orgulho, nostalgia e ressentimento pelas suas ações.

E o que dizer do personagem mais complexo, o físico Jon Osterman. Ao sofrer um acidente em seu laboratório, é transformado em seu próprio objeto de pesquisa, a matéria quântica, em uma sutil alusão à dedicação de uma vida inteira dessas pessoas ao trabalho, enquanto terminam por se distanciar das pessoas. Após o acidente, se transforma em um agregado de partículas que lhe mantém apenas a forma humanoide. Consegue manipular a matéria em seu nível mais primitivo, o que lhe dá a capacidade de viajar em quaquer ponto no tempo e no espaço. Porém, a experiência acaba o deixando cada vez mais isolado das pessoas, e sua compenetração consegue apenas estudar cada vez mais a estrutura física das partículas, mas nunca acerca da natureza humana. Não por acaso, seus olhos não possuem expressão, e sua fala é pausada e sem emoção.

Por sua própria condição, Dr. Manhatan passa a ser braço direito do governo de Nixon, à época atual presidente dos Estados Unidos, e os constantes abusos de poder do estadista o tornam uma arma letal e motivo de cautela dos outros países, o que acaba por alterar o curso da história como a conhecemos. Dr. Manhattan é o mais próximo que o filme chega de um super-herói tradicional, mas que não está a serviço da humanidade, como é bem colocado pelo roteiro através da frase “O super-homem existe, e ele é americano”.

Apenas pela descrição dos personagens e de suas relações o filme já se distanciaria milhas de seus pares. No entanto, o próprio conceito de heroísmo nos dias de hoje é discutido em sua trama maior, e as razões do antagonista conseguem deturpar ainda mais esse conceito.

Imagens e créditos no IMDB.
Watchmen O Filme ● Watchmen O Filme. Watchmen (USA, 2009). Dirigido por Zack Snyder. Escrito por David Hayter, Alex Tse, Dave Gibbons, Alan Moore. Com Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Jackie Earle Haley, Jeffrey Dean Morgan, Patrick Wilson, Carla Gugino, Matt Frewer, Stephen McHattie. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-09-04. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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