Westworld - Primeira Temporada
Wanderley Caloni, 2017-03-26

Eu fui programado para escrever esse texto? Posso responder, na melhor das hipóteses, que eu estar escrevendo este texto é consequência da soma das minhas ações. No entanto, volta outra pergunta no lugar: eu fui programado para executar tais ações?

A série televisiva – leia-se: lotada de enchimento de linguiça – Westworld tenta explorar essa questão nos entregando em sua história um parque temático com representações físicas fidedignas de seres humanos, que interagem com os visitantes como personagens “de carne e osso” do velho oeste. Isso permite que os clientes satisfaçam seus desejos mais profundos, geralmente sádicos e sexuais, e ao mesmo tempo coloca em xeque nossos conceitos de moral e ética.

Mas Westworld é mais que isso. Preso ao parque, o conhecimento e tecnologias desenvolvidos durante décadas está nas mãos de poucos investidores, e a criação de histórias e personagens nas mãos de seu fundador. Isso quer dizer que ainda estamos nos limiares do que torna possível desenvolver “cérebros” capazes de conter memórias e processar os mais diferentes tons de emoções humanas, mas ao mesmo conter a racionalidade dessas máquinas em roteiros feitos não apenas para entreter a platéia, mas controlar os anfitriões em um mundo onde todos carregam facas e pistolas.

As ideias por trás do seriado ultrapassam sua narrativa em anos-luz. Ainda assim, o tratamento dado pelos idealizadores é digna de respeito, pois pensou nos mais diferentes empecilhos para que aquele experimento pioneiro se contivesse ainda em uma espécie de laboratório mental. O preço para isso são personagens mal desenvolvidos e diálogos que se repetem sem muitas vezes querer dizer alguma coisa mais profunda, e mesmo com os mais devidos respeitos ao personagem de Anthony Hopkins, é difícil não entender desde a primeira cena em que ele aparece que este é um estereótipo tão básico quanto os primeiros bonecos colocados no parque (como Dolores, a eterna mocinha que aguarda pelo resgate).

O personagem de Hopkins é o cientista maluco, e sua criação é, no melhor sentido metafórico do tema, fruto dos delírios de um roteirista que tem a possibilidade de criar personalidades que sejam finalmente livres de seu criador. Negar isso é negar a própria essência de sua caricatura, e mesmo que a série constantemente nos jogue uma ideia contrária, sabemos desde o início que Hopkins está lá para chocar. O que, paradoxalmente, é o que acaba menos chocando.

Caindo na própria armadilha de ilustrar bonecos como personagens de um filme de terror, as pessoas reais da série estão longe de parecer muito diferentes de suas contrapartes de plástico. Aliás, esse truque de comparação é tão velho quanto o primeiro filme de George Romero.

E por falar no criador máximo de filmes de zumbi, não deixa de ser igualmente irônico que o único caminho a ser seguido pelo longa de dez horas é justamente se entregar a caricaturas, quebra-cabeças previsíveis (ainda que cercadas por uma narrativa competente em escondê-los) e girar em torno do próprio rabo sobre as questões filosóficas perenes.

E nesse sentido, podemos também concluir com uma pergunta capciosa: os roteiristas de Westworld foram programados para escrever Westworld? Ou foram apenas consequências das ações de bilhões de indivíduos o que nos trouxe aqui? E mais uma vez, outra pergunta volta no lugar: fomos programados para executar tais ações?

★★★★☆ Westworld. USA. 2016. Direção: Jonathan Nolan, Fred Toye. Roteiro: Lisa Joy, Jonathan Nolan, Michael Crichton, Halley Wegryn Gross, Dan Dietz, Charles Yu. Elenco: Evan Rachel Wood (Dolores Abernathy), Thandie Newton (Maeve Millay), James Marsden (Teddy Flood), Jeffrey Wright (Bernard Lowe), Ed Harris (Man in Black), Anthony Hopkins (Dr. Robert Ford). Edição: Andrew Seklir, Tanya M. Swerling, Mark Yoshikawa. Fotografia: Brendan Galvin, Robert McLachlan, Paul Cameron, Jeff Jur. Trilha Sonora: Ramin Djawadi. Duração: 60. Drama. #torrent