Westworld S02 E01-04

Jul 27, 2018

Westworld e suas revelações nos primeiros quatro episódios são tão profundas que suas várias linhas narrativas ficam em um vácuo por mais de um episódio. E isso é por uma causa justíssima, pois não há como se concentrar com vários acontecimentos em paralelo (e em várias linhas do tempo), e também porque eles (por enquanto) não se influenciam, mas se completam, para explicar um assunto que já vai ficando claro no segundo episódio e óbvio no terceiro: a busca por imortalidade.

A frase que ficou mais na minha memória na impecável primeira temporada não foi nenhum brilhantismo de Ford nem as instigantes mensagens que os androides traduziram em seus pensamentos, mas a da diretora do parque: os clientes querem uma coisa, os criadores querem outra coisa e os acionistas querem outra completamente diferente. É um conforto entender que as premissas da história geral continuam sendo respeitadas e ampliadas, e já não me preocupo mais quais são os caminhos que a série pode abrir, pois as estruturas temáticas do terceiro e quarto episódios já me convenceram que estamos falando de uma narrativa muito, muito boa. Talvez melhor que a da primeira temporada.

Note, por exemplo, como a série explora com sucesso a discussão sobre o que é realidade. Desde o princípio, na temporada anterior, trazendo as sensações mistas dos androides sobre o que são memórias, sonhos ou a realidade em si, apesar de aparentemente emancipados, isso não impede que Maeve continue perseguindo seu objetivo de resgatar sua filha fictícia de uma narrativa antiga, ou até mesmo que Dolores compareça da situação “pai” ao reencontrá-lo, um rancheiro que, se vc não lembra, “deu pau” no primeiro episódio da série, sendo trocado por outro robô. E, não por coincidência, mas inteligência, agora ele é a chave do que a empresa Delos (a parte dos acionistas) tanto valoriza neste experimento, mesmo que em detrimento agora até de vidas humanas (e que tem muito a dizer sobre a desumanização das corporações ou do desequilíbrio entre o “valor” entre diferentes seres humanos que beira uma distopia capitalista).

Mas não pára por aqui. Esta não é uma série cujas metáforas são apenas uma crítica ou análise de apenas uma área do conhecimento humano. Artisticamente a série vai além. Observe o final de um certo personagem ao final do quarto episódio, banhado em um vermelho fatídico, e após ter vivido tanto tempo em incontáveis réplicas, e a imagem do inferno de Dante, ou do purgatório, ou das peças que o demônio prega, vêm à nossa mente. E também são o eco da mente deste personagem, ou o que restou dela, com suas frases e comportamentos que surgiram repetidamente no passado, agora pela última vez.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-07-27. Westworld. Série criada por Jonathan Nolan e Lisa Joy. Dirigido e escrito por uma porrada de gente.