Winter on Fire

Mar 27, 2016

Imagens

Um hino à liberdade em três atos. No primeiro ato, a repulsa à traição do líder máximo da nação com uma manifestação espontânea e apartidária. No segundo ato, um cenário de conflitos que são dominados pelo patriotismo e organização cooperativa. No terceiro ato, o estado, esse monstro disforme que mata tudo que toca, revela sua última faceta, e transforma o hino de liberdade em um banho de sangue.

A tomada da Praça da Independência em Kiev, capital da Ucrânia, por civis em posse de seus direitos de protestar, foi a melhor forma de se manifestar através da ação a teórica auto-determinação de um povo. Independente desde 1991 da Rússia Soviética, foi a chegada ao poder de um presidente-fantoche, aliado aos interesses russos de continuar submetendo os habitantes da Ucrânia aos desejos da mãe-russa, e sua recusa em assinar o tratado de livre comércio com a União Europeia, que deu origem ao estopim necessário para uma série de movimentos civis pró-liberdade. Sim, o objetivo claro e conciso dessas pessoas era simplesmente se verem livres da influência de um mundo que se provou avesso à liberdade e dignidade humanas, e marchar em direção ao mundo civilizado, o mundo do comércio pacífico entre as pessoas, o mundo da única chance do ser humano de se tornar algo a mais do que um animal submetido ao sacrifício: o capitalismo.

No entanto, entre o desejo e sua concretização haviam barricadas, e soldados armados e treinados, dispostos a ferir e até matar pessoas. Sua motivação? Não se pode explicar como humana, mas apenas como animais contratados por um líder que se mostrou um tirano sanguinário em uma questão de meses. Note bem: se “mostrou”, não se “transformou”, pois na verdade já era. Essa é a natureza do estado, ou pelo menos a motivação mais primitiva: subjugar pessoas pelo uso da força. A retirada de indivíduos de seu livre-arbítrio. O presidente-fantoche era apenas o tirano da vez, que teve o azar de ter que tirar sua máscara para defender seu bem mais precioso: o poder sobre a liberdade de milhões de indivíduos, e todas as recompensar que veem junto disso.

O diretor Evgeny Afineevsky e o roteirista Den Tolmor realizam um trabalho que caminha passo-a-passo com a contemporaneidade do século 21 e seus celulares, milhares de câmeras informais espalhadas em torno de qualquer acontecimento ao redor do mundo. Através de uma narrativa que escolhe personagens importantes, ou significativos, para a história que quer contar, podemos facilmente navegar em meio ao caos dos dias que se passam na praça e nos conflitos, pois há sempre uma linha de raciocínio, a unir presente e passado dessas pessoas, para o imediatismo dos conflitos. Quando vemos uma dessas pessoas ser entrevistada, o que ela está dizendo nos remete diretamente à ação registrada por alguns desses milhares de celulares ou câmeras. A facilidade de acompanhar a ação dá impressão de ter sido uma edição fácil, mas na verdade isso é fruto de um trabalho afiadíssimo do montador Will Znidaric, que consegue dar uma fluidez invejável a um documentários, fazendo-o se comparar em intensidade aos melhores filmes de ação e drama, com o adendo significativo de tudo aqui filmado estar acontecendo de verdade.

A paixão do povo ucraniano pode ser vista nesse documentário em uma revolução dos dias atuais e filmado como nos dias atuais. Graças à internet e à tecnologia, a vida acontece muito mais rápido. Não leremos nos livros de história a respeito da Revolução Ucraniana, mas a testemunhamos através dos celulares de indivíduos, registrando em tempo real, em cores, com alta definição e altíssima intensidade, a crueldade de um sistema político centralizando que, democrático ou não, deixa de servir ao seu povo quando os reais motivos de sua existência não mais estão suficientemente alinhados. Que isso sirva de lição para qualquer país que queira se torna sério neste século. E que, como Cinema, este exemplo se torne o “Homem com uma Câmera na Mão” deste século, com a diferença desta câmera estar fragmentada em milhões de testemunhos.

Wanderley Caloni, 2016-03-27. Winter on Fire. Winter on Fire: Ukraine's Fight for Freedom (UK, 2015). Dirigido por Evgeny Afineevsky. Escrito por Den Tolmor. Com Bishop Agapit, Serhii Averchenko, Kristina Berdinskikh, Pavlo Dobryanskyy, Valery Dovgiy, Bogdan Dubas, Kurganskyi Eduard, Mykhailo Havryliuk, Natan Hazin. IMDB.