X-Men Dias de um Futuro Esquecido

May 26, 2014

Imagens

A franquia X-Men parece ter chegado a algum tipo de saturação nesse “Dias de um Futuro Esquecido” onde o diretor Bryan Singer, que estreou a série e sua continuação, parece recontar momentos históricos da luta entre humanos e mutantes quando, mais uma vez, mutantes pacíficos e mutantes violentos se reúnem.

De qualquer forma, convenhamos: seria muito difícil que o roteiro de Simon Kinberg superasse a complexidade do drama entre dois amigos de “X-Men: First Class” — sejam eles Xavier e Raven/Mística ou Xavier e Eric/Magneto — ou até da catarse apocalíptica de “O Confronto Final”. Talvez o maior erro fosse compará-los, mas acredito que o verdadeiro pecado é percorrer quase o mesmo caminho de uma história que possui um potencial muito maior exatamente pelas suas alegorias atuais com homossexualidade e racismo. O velho caminho do terrorismo e corporações também parece ter chegado a algum tipo de saturação.

Porém, não se pode culpar “X-Men 5” de tentar, principalmente através do sempre empolgante artifício da viagem no tempo e de — claro — novos mutantes com novos poderes. Aqui estamos em um futuro não tão distante em que o programa do(s) governo(s) chamado de Sentinelas se volta contra mutantes e humanos e os únicos sobreviventes desse genocídio (mutantes, claro) se unem para realizar uma “viagem no tempo mental” com Wolverine, ou seja, sua consciência é transportada para o Wolverine de 50 anos atrás, onde um acontecimento primordial, se evitado, poderia reverter a criação dessas máquinas de matar. Para conseguir revertê-lo, contudo, ele terá que recuperar o sentimento de equipe entre os mutantes que se quebrou logo após o incidente em “First Class”.

Empolgante em sua introdução, mas nunca entregando momentos icônicos como o início dos quatro filmes anteriores, pouco sabemos como a guerra chegou a tal ponto, mas sabemos que sua estrutura se assemelha exatamente com um filme dos anos 80 chamado O Exterminador do Futuro e que um dos mutantes possui o mesmo poder que os jogadores do vídeogame Portal e Portal 2, o que já denuncia a falta de originalidade em sua narrativa e artifícios de ação, mas que mesmo assim continua eficaz. Até certo ponto. Já estamos acostumados com os poderes mutantes, então é estranho ver Wolverine surpreso quando Kitty Pryde (Ellen Page) consegue transportá-lo para os anos 70 em seu próprio corpo daquela época. E se em First Class há uma tentativa óbvia de situar o filme dentro do universo artístico, cultural e político daquela época, aqui a única citação óbvia é um “você tomou um ácido muito ruim”.

Sem parecer ter muito tempo para explorar nenhum dos dois “tempos” em que a história se passa, o estado depressivo do Xavier do passado e a possível morte de um personagem importante no futuro deixam de ter muito tempo em tela, diferente da sequência absurdamente tensa em “O Confronto Final”. A única diferença fácil de ser identificada entre esses dois mundos é a fotografia sombria do pós-apocalíptico (e não espere nada que preste dos efeitos 3D). Ah, sim, e os Sentinelas do futuro tem um design mais elegante e Professor Xavier agora tem uma cadeira de rodas flutuante.

Todas as sequências de ação e de drama em “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” são ótimas — com destaque para o uso dos portais já citados e a belíssima sequência de fuga do Magneto culminando na cena envolvendo policiais, balas, gotas de água e um garoto muito rápido (Evan Peters, de American Horror Story) — mas parecem empalidecer quando comparadas com exemplos dos filmes anteriores. Mesmo a cena do estádio, que causa um certo impacto, acaba lembrando através de sua sombra um momento muito mais extasiante envolvendo uma ponte em “O Confronto Final”. E se foi uma ótima ideia utilizar Wolverine e Mística como os personagens mais relevantes da história, o mesmo não pode ser dito de suas participações cercadas de diálogos medíocres que não harmonizam com a inteligência de ambos. E por falar em inteligência, chega a ser inviável imaginar Raven tendo um embate interno a respeito de suas ações quando se torna óbvio para todos envolvidos que seu objetivo nunca poderá ser alcançado da maneira que pretende.

Com atuações acertadas, embora não inspiradas, o filme favorece momentos de reflexão, embora nunca seja ambicioso em delineá-los. Se, por um lado, matar humanos para se defender da cada vez mais presente represália que os mutantes poderão sofrer, nenhum argumento contra parece soar razoável quando estamos falando de algo que salvará não apenas os mutantes do futuro, como toda a humanidade. Portanto, sem escapatória em seus embates filosóficos mal-formados, quase lembrando Prometheus (mas nem tanto), o que resta é mais uma sequência dos nossos já conhecidos heróis, que lutarão mais uma vez em uma nova aventura cujo teaser você poderá conferir ao final de todos os créditos.

Wanderley Caloni, 2014-05-26. X-Men Dias de um Futuro Esquecido. X-Men: Days of Future Past (USA, 2014). Dirigido por Bryan Singer. Escrito por Simon Kinberg, Jane Goldman, Simon Kinberg, Matthew Vaughn. Com Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Nicholas Hoult, Anna Paquin, Ellen Page, Peter Dinklage. IMDB.