X-Men: O Filme

“X-Men: o Filme” é um dos primeiros trabalhos de fantasia que volta a explorar super-heróis verossímeis, no sentido de respeitá-los como seres complexos envoltos em um universo onde sua existência não apenas é possível, mas moldada por ela. Dessa forma, ele faz o gancho com os quase esquecidos “Superman: o Filme” e “Superman: a Aventura Continua” e ainda nos apresenta uma aventura onde existe uma penca deles, conseguindo fazer com que tudo tivesse não apenas um sentido direto, mas simbólico.

É por isso que o filme escrito por Tom DeSanto, David Hayter e Bryan Singer (este último o que dirige) começa na Alemanha nazista da segunda guerra, onde vemos um garoto se separar de sua mãe e estranhamente parecer ter o poder de mover as grades de um portão através do seu estado emocional abalado. Avançando rapidamente no tempo, descobrimos que “em um futuro não muito distante” há outras pessoas dotadas de habilidades sobrenaturais, são chamados de mutantes e estão sob os olhos da temerosa sociedade norte-americana, que quer garantir através de uma proposta de lei que essas abominações tenham sua identidade cadastrada (e pública) e suas localizações monitoradas. Não que os judeus sejam tão diferentes a ponto de termos medo, mas o paralelo mais do que óbvio não é entre judeus e mutantes, mas muito mais entre ambas as sociedades, o que está bem longe de uma mensagem de esperança.

Rapidamente também aprendemos que a maioria dos mutantes teme pela sua vida (pelos motivos já apontados) e esconde suas habilidades, mas há pelo menos dois grupos que se organizaram em torno de uma causa: proteção. Enquanto um grupo, liderado pelo Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), defende uma solução mais amigável e pacífica com os humanos ou não-mutantes (ou os donos do poder), um outro grupo liderado por Eric Lensherr (Ian McKellen), ou Magneto, acredita que tudo isso é uma ilusão, em breve todos serão caçados e a única saída é iniciar um confronto o quanto antes. Magneto é o garotinho judeu do início do filme. Essa informação é vital para que, mesmo que não simpatizemos, pelo menos entendamos suas ressalvas com a humanidade, e os mais radicais até podem torcer pelos seus métodos.

Dessa forma, “X-Men: o Filme” está muito longe daquela fórmula maniqueísta de “bem vs mal”, já que tudo é uma questão de ponto de vista. Ainda assim, realiza um ótimo trabalho em demonstrar como alguma atitudes, embora vestidas de nobre, soam covarde sob o escrutínio lógico. É assim que Wolverine (Hugh Jackman), o X-Men mais complexo, consegue desmascarar os planos de Magneto, que além de covarde é hipócrita.

Iniciando uma franquia de maneira satisfatória, já que de certa forma consegue concluir a trama principal sem ficar prometendo filmes melhor resolvidos para depois (um pecado comum nas produções da Marvel), o filme de Bryan Singer pode até ser acusado de infantil, já que usa a fantasia em excesso para não fazer perder suas referências nos quadrinhos. Porém, se isso é de fato uma acusação, acusemos também o primeiro Star Wars, Indiana Jones e até E.T.. Indo mais além, até “Superman: o Filme”, mesmo épico, é um filme de criança. Torçamos, então, para que todos os filmes de criança permitam a entrada de adultos na sala de exibição.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-07-16. X-Men: O Filme. X-Men (USA, 2000). Dirigido por Bryan Singer. Escrito por Tom DeSanto, Bryan Singer, David Hayter. Com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Tyler Mane, Ray Park. imdb